22 de Fevereiro de 2012
A INVENÇÃO DE HUGO de Martin Scorsese,
com Asa Butterfield, Chloë Grace Moritz, Ben Kingsley, Christopher Lee, Sacha Baron Cohen.
Aventuras / Drama / Fantasia

por Falco Fernandes


Se procura num filme o caminho do sonho e da fantasia, o escape natural para os cinzentões e descontentes dias que vivemos, tem a partir de hoje nas nossas salas o filme ideal, HUGO de Martin Scorsese, entre nós intitulado A INVENÇÃO DE HUGO, título da versão portuguesa da novela de Brian Selznick que John Logan adaptou a argumento.
Recheado de pequenos e grandes tesouros, este filme protagonizado por actores como um camaleónico Ben Kingsley, o veterano Christopher Lee e o insólito Sacha Baron Cohen, criador da personagem Borat, HUGO é iluminado pela radiosa presença de dois pequenos actores, Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz, respectivamente nos papéis de Hugo Cabret e da sua amiga e cúmplice Isabelle.
Realizado pelo mais carismático realizador norte-americano em actividade, incapaz de fazer dois filmes semelhantes e que aqui se estreia no universo infantil, esta fantasia rotulada de comédia dramática, é de facto um brilhante filme de aventuras, desenhado num ambiente fértil de imaginação e sonho, como sucede apenas na juventude, e situado na paradigmática Paris dos anos 30.
Hugo, aliás Hugo Cabret como o miúdo faz questão de sublinhar, é órfão de um habilidoso e sonhador relojoeiro, cujo propósito na vida fora reparar “coisas estragadas” e de quem guarda como uma preciosidade um robot cuja reparação o pai não concluiu, mas que guarda em si uma mensagem que Hugo quer descobrir.
Quando perde o pai, vai viver com o tio Claude, um velho bêbedo que tem por missão manter em funcionamento os relógios duma estação ferroviária em Paris, passando a habitar no interior das paredes do velho edifício, mas levando consigo o robot, para cuja reparação vai surripiando peças de relojoaria e ferramentas à socapa.
Mas esta vida semiclandestina vai-lhe causando pequenos e grandes dissabores, desde a ferocidade do papa George, dono duma lojeca de brinquedos antigos no interior da estação e uma das vítimas privilegiadas de Hugo, e do Inspector da Estação, um ferido da 1ª Grande Guerra que tem uma perna articulada, um feroz Doberman e sonha caçar o que considera um pequeno criminoso.
Quando as coisas se complicam e Hugo sofre um rude golpe no seu sonho, conhece Isabelle que se dispõe a ajudá-lo e juntos encetam uma aventura que implica a conquista da confiança mútua e a cumplicidade que os levará a arrastar tudo e todos numa viagem fantástica que culminará com a descoberta da “Fábrica dos Sonhos”.
Saborosa aventura, esta com que mestre Martin Scorsese homenageia os primórdios do cinema, partindo duma história com que se estreia um descendente de David O. Selznick, e rodeado de actores de excelência, como Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Christopher Lee, Jude Law, mas também com os novatos Asa Butterfield, aqui no seu 5º filme e que protagonizou O RAPAZ DO PIJAMA ÀS RISCAS, e Chloë Grace Moretz, que aos 14 anos conta já com 10 prémios e 17 nomeações, um filme rodado em digital 3D e com a belíssima música de Howard Shore.A não perder, dizemos nós, para quem ainda consegue sonhar.

9 de Fevereiro de 2012
PROMETO AMAR-TE de Michael Scusy,
com Rachel McAdams, Channing Tatum, Sam Neil, Jessica Lange.
Drama / Romance

por Falco Fernandes


A perda da memória recente, mantendo intactas as recordações mais antigas, acontece com frequência em várias doenças que afectam as pessoas a partir duma certa idade, caso da doença de Parkinson, mas pode ocorrer também em resultado dum trauma psicológico, desencadeado por um traumatismo craniano.
PROMETO AMAR-TE baseia-se numa história verídica contada por Stuart Sender, e adaptada ao cinema por 4 argumentistas, um dos quais o próprio realizador do filme Michael Sucsy, dum casal que vive essa situação dramática, quando o carro em que param por momentos, num momento em que neva, é violentamente embatido por um camião e projectado contra um candeeiro, projectando o mulher através do para-brisas, acabando deitada sobre o capot do motor.
O título original em inglês é THE VOW, o que significa “o voto”, precisamente a promessa de amor mútuo e eterno entre os dois, aquando do casamento celebrado pouco tempo antes num grupo de amigos, na Escola de Arte de uma cidade do Illinois, onde Leo vive e para onde Paige se mudou, abandonando a casa dos pais e o curso de Direito, para se tornar independente e estudar Arte, afinal o seu objectivo na vida.
Induzida em coma para que o cérebro tenha mais possibilidade de recuperar, quando é finalmente despertada, ao cabo de algum tempo, regista um lapso de memória recente e nada recorda desde  o momento em que decidira sair da casa dos pais.
De nada adianta a Leo insistir com Paige para que tente recordar-se do que aconteceu desde esse momento de fissura e o apaixonado marido passará o futuro a tentar por todos os meios provar à amnésica esposa tudo o que ela esquecera, embora ela decida partir com os pais de regresso a casa deles, retomando a vida exactamente no ponto em que a deixara.
Rachel McAdams interpreta o papel de Paige, Channing Tatum o de Leo, os pais da jovem, Rita e Bill Thornton, são interpretados pelos veteranos Jessica Lange e Sam Neill, disputando ao longo deste drama romântico um apertado jogo de xadrez, em que os progenitores tudo fazem para esconder à filha o que realmente se passou, numa tentativa de não a perderem de novo, e o desesperado Leo nunca utiliza tudo o que Paige lhe contou, para tentar devolver-lhe a memória esquecida duma paixão forte que se mantém viva nele e lhe dará alento para continuar.
PROMETO AMAR-TE, de Michael Scusy que com se estreia aqui em cinema (contava apenas com um filme para televisão), Rachel McAdams e Channing Tatum, chega às salas portuguesas no mesmo dia em que ocorre a estreia mundial em outros 5 países e mesmo nos Estados Unidos, onde as estreias têm lugar às sextas, apenas sairá no dia 10.
Ignora-se ainda qual o orçamento destes 104 minutos de filme, cuja rodagem que decorreu entre Outubro e 31 de Dezembro do ano passado, em Illinois, nos Estados Unidos, e Ontário, no Canadá, mas à excepção do elenco, pode presumir-se que não se tratará duma produção muito cara, embora o resultado seja bastante bom.Antes do genérico final, a fotografia do casal que viveu a história, com referência ao desenlace na vida real, confere mais força a este filme agradável e sem grandes aspirações.

9 de Fevereiro de 2012
A DAMA DE FERRO de Phyllida Lloyd,
com Meryl Streep, Jim Broadbent.
Drama / Biografia

por Falco Fernandes

Estreia esta semana nas nossas salas DAMA DE FERRO, um filme bastante contestado, especialmente pelos sectores à esquerda do Partido Conservador que vêm nele uma tentativa de branquear os excessos direitistas de Margareth Tatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990.
Certo é que o seu mandato ficou célebre pela inflexibilidade em relação aos sindicatos, cujo poder tentou reduzir, por praticamente acabar com o ordenado mínimo nacional e o serviço nacional de saúde, em nome da necessidade de reequilibrar as contas do seu país.
Mas o seu programa levou-a a tornar-se na primeira chefe do governo britânico e a popularidade granjeada com a vitória sobre a Argentina do conflito das Falklands e a firme oposição à criação da União Europeia, a ser reeleita para novo mandato em 1983.
Mais do que o retrato biográfico da política, o filme de Phyllida Lloyd que apenas contava com o musical MAMMA MIA!, também protagonizado por Meryl Streep, é o acompanhamento duma política retirada, velha e confusa, assaltada pelas recordações duma vida cheia e confundido já o presente com o passado que não lhe larga a memória.
Margareth Roberts, esta interpretada por Alexandra Roach, nome de nascimento daquela que viria a entrar para a história como a “Dama de Ferro”, nasceu em 1925 no seio duma família humilde, que explorava uma mercearia.
O apelido foi adoptado pelo casamento, em 1951, com Denis Tatcher, um industrial que integrava as fileiras do Partido Conservador e a introduziu no mundo da política.
Parlamentar aos 24 anos, tornou-se na primeira mulher líder de um dos dois grandes partidos britânicos em 1975, sendo eleita Primeira-Ministra 4 anos depois.
A DAMA DE FERRO começa já no crepúsculo de Tatcher, com um detalhe aparentemente insignificante, mas que define toda a obstinação que marcou a vida desta mulher, quando consegue esgueirar-se de casa, iludindo a vigilância da segurança da Scotland Yard, para ir comprar leite a uma lojeca local.
O filme é um vai e vêm saltitante, ao longo de uma hora e 45 minutos, entre a adolescência, a ascensão na política, o exercício do poder e o envelhecimento de Margareth que, como seria de esperar, Meryl Streep interpreta duma forma fascinante.
Assente numa estrutura consistente e prendendo a atenção de princípio ao fim, não nos parece que seja o branqueamento duma figura da recente história britânica, antes um ponto de vista sobre o ser humano que guardava a Dama de Ferro.

2 de Fevereiro de 2012
O ARTISTA de Michel Hazanavicius,
com Jean Dujardin, Bérénice Brejo.
Romance / Comédia / Drama

por Falco Fernandes

A grande coqueluche cinematográfica, um pouco por todo o lado aonde vai chegando, é incontornavelmente O ARTISTA, de Michel Hazanavicius, também assinou o argumento e os diálogos deste, estes apresentados em intertítulos, porque dum filme mudo se trata e a preto e branco, adequados a uma narrativa que remonta a 1927, época de transição para o cinema sonoro.
Este é o quarto filme de fundo do realizador francês que tem já um novo filme em pós-produção, conta com um total de onze trabalhos, de entre os quais uma curta e cinco filmes e séries para televisão.
O artista é George Valentino, excelentemente protagonizado por Jean Dujardin, um actor de sucesso da época do cinema mudo que se confronta com o advento do sonoro e o risco de ver a sua carreira deitada por terra.
Mas são também toda uma geração de actores que atravessaram a crítica fase do cinema e de que a maioria viu arrasada uma carreira muitas vezes recheada de múltiplos sucessos, alguns em actividade desde o despontar do cinema em 1895 e, para não irmos mais longe, bastará relembrar o caso paradigmático de Charles Chaplin, cuja personagem Charlot, ainda hoje mantém intacta aura de há quase um século, com 86 actuações, 81 das quais da época do mudo.
Mas Hazanavicius escolheu o género comédia para relatar este drama e conseguiu portentosos resultados, dispondo bem e deslumbrando com a narrativa e o filme dela resultante.
O abatido George Valentin, em vias de ver a arruinada a sua vida, deixa-se prender pelos encantos de uma jovem secundária, Peppy Miller, outra interpretação notável, esta de Bérénice Brejo, e que vê nele uma hipótese de subir a escada do sucesso por que tanto ambiciona, a reboque dele.
Desde as meticulosamente escolhidas imagens com que a era do mudo é retratada, recriando ao detalhe a estática da época, ao momento em que Valentin toma consciência do sonoro, tudo flui neste belo filme como uma sinfonia, cujo fim cedo se adivinha, mas que consegue manter o clima desejado pelo realizador até ao final.
Se a tudo isto acrescentarmos a indispensável música que acompanhava as sessões de cinema mudo, à época tocada por um pianista ou uma orquestra durante a projecção do filme, a escolha não poderia ter recaído num nome mais adequado do que o de Ludovic Bource que fez um trabalho magnífico e a despeito de apenas contar com nove trabalhos para cinema, teve já 6 prémios e 4 nomeações, uma delas para o Oscar, todos pela banda sonora original de O ARTISTA.
Para já, o filme vai somando prémios e embora tenha orçado em escassos menos de 12 milhões de euros, já recuperou a totalidade só nos Estados Unidos, a que se somam, até ao momento 10 milhões em França e um total de 2 milhões em alguns dos países europeus onde está em exibição.
Perante o entusiasmo geral com O ARTISTA, de Michel Hazanavicius, com Jean Dujardin e Bérénice Brejo encabeçando o elenco, veremos como o público português reage a um filme diferente que se afasta dos parâmetros do cinema que está habituado a ver, duma forma geral medianamente medíocre.

2 de Fevereiro de 2012
O GRANDE MILAGRE de Ken Kwapis,
com Drew Barrymore, Jon Krasinski.
Épico / Drama / Romance

por Falco Fernandes

Adaptação de uma história verídica relatada no livro “Freeing the Whales”, de Thomas Rose, estreia esta semana nas salas portuguesas o drama épico BIG MIRACLE, entre nós traduzido literalmente como O GRANDE MILAGRE.
A realização coube a Ken Kwapis, com várias nomeações para os Emmys e 2 prémios menores para filmes, responsável por 31 trabalhos, a maioria para televisão e 11 dos quais para cinema, parte deles já exibidos entre nós, como SIGAM O PÁSSARO AMARELO de 1985, A GUERRA DOS SEXOS de 1991 ou LICENÇA PARA CASAR de 2007.
Numa escolha feliz, entregou os papéis principais, o repórter de televisão Adam Carlson e a activista do Greenpeace Rachel Kramer, a dois actores que se desenvencilharam bastante bem da tarefa, John Krasisnki e Drew Barrymore.
Quando Adam, no final duma reportagem sobre uma aldeia de esquimós Inuit no Alasca e sem a certeza de que a peça venha a ser difundida, descobre uma família de baleias cinzentas encurraladas sob o gelo que se formara mais cedo e rapidamente no Ártico, corre atrás da reportagem que os seus “amigos” lhe esconderam, na mira de que elas ali acabem os seus dias para as caçarem, sua fonte principal de alimento.
Acontece que num furo de pouco mais de um minuto, à cauda dum noticiário, entre várias hipóteses, o editor decide-se pela difusão da peça, “porque essa coisa das baleias toca sempre as pessoas”, sem imaginar a corrida frenética que vai desencadear, a reboque desta imprevista reportagem de Adam.
Para o melhor, os norte-americanos só de facto hábeis a “contar histórias” através de imagens e O GRANDE MILAGRE relata o impacte da notícia junto dos espectadores, num país que vive de olhos colados à televisão, e a corrida da concorrência que invade a aldeia para cobrir a história do momento.
Por outro lado a oposição com que a ideia da tentativa de resgate é recebida em certos meios, políticos e financeiros dado o custo que se antevê, a escalada de esforços que irão ser feitos, para ajudar as baleias, um casal e a sua cria, a vencerem os 8 km que os separam do mar e da vida.
Empolgante e comovente, filmado sobre o belo pano de fundo do Alasca, a história aconteceu em plena campanha de Reagan para a eleição do seu sucessor Bush e de Gorbachev para convencer o mundo da autenticidade da Glasnost, o que acaba por ser determinante para o desenlace da história.Impossível não ganhar ainda mais simpatia por estes pacíficos animais que o homem tem dizimado dos mares, o grande milagre é BIG MIRACLE, de Ken Kwapis, chegar às salas portuguesas apenas 2 semanas após a estreia na Rússia e nos Estados Unidos…

26 de Janeiro de 2012
ATTENBERG de Athina Rachel Tsangari,
com Ariane Labed, Evangelia Randou, Vangelis Mourikis, Giorgos Lanthimos.

Drama

por Falco Fernandes


Os problemas da adolescência têm sido tema de inúmeros filmes que o abordam das mais variadas formas, consoante as culturas e sociedades de origem, mas também segundo as mais diversas perspectiva.
A realizadora Athina Rachel Tsangari, 3 filmes no currículo, de que o 1º é uma curta, mostra-nos o relacionamento entre 2 jovens adolescentes, a sabida Bella e Marina, personagem central deste drama, a um tempo belo e triste, porque o seu pai Spyros se encontra em estado terminal.
Marina divide-se entre a amizade cúmplice com Bella que lhe quer dar a conhecer a sexualidade e o drama que a acompanha, acompanhar um homem que está de partida e ajudá-lo a concretizar os últimos desejos.
Mas será longe dos olhares da amiga que a jovem terá a sua iniciação sexual, com um engenheiro de passagem na cidade, personagem a cargo do realizador, argumentista e produtor Giorgos Lanthimos que participa no argumento do filme.
Uma paisagem acinzentada percorre este filme, reflexo dos tempos desencantados que se vivem, num mundo que o homem ajudou a tornar insuportável, ditando o seu fim a prazo.Justo aplauso para esta jovem realizadora e para o cast escolhido, Evangelia Randou no papel da amiga Bella, Vangelis Mourikis, no do pai, mas sobretudo Ariane Labed, protagonizando Marina.

19 de Janeiro de 2012
OS DESCENDENTES de Alexander Payne,
com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Patricia Hastie.
Drama / Romance

por Falco Fernandes

Uma boa parte do sucesso deste filme, ficará decerto a dever-se ao actor George Clooney, distinguido com o Globo de Ouro para Melhor Actor de Filme Dramático, a Alexander Payne, nomeado para Melhor Realizador, a Shailene Woodley, nomeada para Melhor Secundária, e a Nat Faxon, Grant Heslov e Beau Wilson, nomeado pelo Argumento, o que dá ideia do trabalho destes profissionais de cinema.
Classificado como uma Comédia Dramática, no IMDb, veio ser distinguido na categoria Drama, de facto, a mais adequada ao filme, embora tenhamos de aguardar as nomeações para os OSCARs, para saber se também está nomeado e em que categoria.
O argumento relata a odisseia dum pai que se reencontra com as duas filhas, Alexandra, interpretada por Shailene Woodley, e Scottie, a cargo de Amara Miller, para lhes comunicar que a mãe, Elizabeth, protagonizada por Patricie Hastie, foi vítima de um acidente de barco.
Abrindo sobre uma panorâmica sobre uma cidade do Hawai tem-se antes do genérico, uma vista fugaz da mãe passeando no mar a grande velocidade, apresentando depois a mulher acamada numa cama de hospital.
Percebe-se que a empresa de arquitectos dirigida por Matt King projectou um hotel de luxo a construir na ilha, um uma possessão dos Estados Unidos da América.
Contactadas as filhas, a mais nova em Kauna’i, e a mais velha em O’ahu, ambas perto de Honolulu, regressa com ambas a casa, levando-as a ver a mãe que Amara e Alexandra vêm ainda em estado terminal, com um fim que se adivinha para breve, passando o pai a ocupar-se das 2 filhas.
Recheado de bons temas musicais, OS DESCENDENTES de Alexander Payne, é na realidade um puro drama sem a mínima componente de comédia, como foi classificado nos Globos de Ouro, e com todas as possibilidades de vir a ser nomeado para os Prémios da Academia, mas acima de tudo, um filme absolutamente a ver.

12 de Janeiro de 2012
APOLLONIDE - MEMÓRIAS DE UM BORDEL de Bertrand Bonnelo,
com Hafsia Herzi, Céline Sallette, Jasmine Trinca, Adele Haenel, Alice Barnole, Iliana Zabeth, Noémie Levovsky.
Drama / Erótico

por Falco Fernandes

Crónica do quotidiano num bordel parisiense na transição do século XIX para o século passado, o mais recente filme do professor da La Fémis, Bertrand Bonello, poderá ser o melhor trabalho duma carreira de 15 anos que conta com 5 curtas e outras tantas longas-metragens, tendo sido seleccionado para a competição do último Festival de Cannes.
Plasticamente um belíssimo fresco, pintado com sobriedade sobre um fundo de luxuriante erotismo, resiste à tentação do voyeurismo gratuito, preferindo-lhe o retrato realista da vida de um grupo de trabalhadoras do sexo, com os escassos momentos agradáveis a verem-se com frequência ceifados pela triste realidade de serem tratadas como meras escravas, ao sabor das fantasias mais insólitas e brutais dos seus abastados clientes.
O contrato de trabalho é bem claro: à receita pelo seu trabalho é abatida a despesa devida à dona do cabaret que as acolhe e organiza a  sua contabilidade de forma a cada mês ficarem a dever um pouco mais, de molde a segurar uma mão de obra que poderia tentar outras alternativas, não fora a exploração de que são objecto.
As regras são explicadas às iniciadas pelas colegas há mais tempo na casa: como evitar doenças, até onde poderão ir, a suprema norma de não cair, por um instante que seja, na ilusão de que está vivendo algo mais do que trabalho.
No L’Apollonide, como em qualquer cabaret, é proibido acreditar no amor e se algum cliente quiser arriscar, terá de pagar a “dívida”.
Estabelece-se entre estas mulheres desprotegidas e vulneráveis uma gloriosa amizade que as torna num corpo coeso e solidário, consolando-se mutuamente, perdendo-se em jogos e brincadeiras infantis nos espaços de descanso, dando-se entre si aquilo que de outro lado lhes é negado: a ternura indispensável à sobrevivência.
Mas se servem as fantasias dos clientes, fazem-nos representando aquilo que delas é esperado, o prazer, e fazem-no de forma exímia, revelando comportamentos que percorrem um vasto leque, desde a apatia total, ao abandono do próprio corpo como se duma peça de vestuário se tratasse ou sofrendo em silêncio uma forma de punição que a vida lhes impôs.
Os pequenos e grandes dramas vão percorrendo a casa de meninas e a vida delas, uma gravidez indesejada, uma contaminação com sífilis, uma laceração na carne ditada pela fantasia secreta dum cliente em que se confiou inadvertidamente.
O segredo deste bem conseguido APOLLONIDE – MEMÓRIAS DE UM BORDEL, de Bertrand Bonello, reside sobretudo na forma plasticamente irrepreensível como conseguiu retratar um cenário decadente, na sensibilidade posta na crónica das vidas de Samira, Clotilde, Julie, Léa, Madeleine e todas as outras que nos deixam marcados, quando se apaga a lanterna vermelha no número 24 daquela rua de Paris.

12 de Janeiro de 2012
TUCKER & DALE CONTRA O MAL de Eli Craig,
com Tyler Labine, Alan Tudyk, Katrina Bowden.
Comédia / Horror / Romance

por Falco Fernandes


Anunciada entre nós como uma comédia, a estreia em cinema de fundo de Eli Craig, entalada entre uma curta de 2004 e uma série para televisão, é na realidade uma comédia de horror, mas podia (e talvez devesse) ser designada um horror de comédia, o que não impediu que entre os 5 prémios e outras 7 nomeações com que já conta figure o de melhor realizador no prestigiado Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalónia, Espanha.
Dois nerds, cada um senhor de um estilo muito próprio, vão passar férias à casa que um adquiriu estafando as economias num excelente negócio e quando chegam ao local, deparam-se com um barracão arruinado, a cair de podre, cedo se apercebendo de que terá sido palco de algo de demoníaco.
Numa parede, somam-se os recortes de jornais velhos, com notícias sobre o que é designado como “Massacre do Memorial Day”, um feriado federal norte-americano, assinalado na última 2ª feira do mês de Maio e em que se evocam os soldados da União tombados durante a Guerra Civil Americana.
Os ingénuos e desajeitados Dale e Tucker, o proprietário do arruinado barracão, divertem-se com a descoberta e, entremeando com sessões de pesca e cerveja, metem braços à reconstrução da casa de campo, estrategicamente situada perto de um lago onde s e preparam para desfrutar do seu desporto favorito.
Tucker é o líder do dueto, de que Dale acabará por se revelar uma surpresa com os inesperados acontecimentos que se seguirão.
É que justamente quando os 2 amigos se estabelecem do seu palacete, instala-se nas proximidades um grupo de adolescentes universitários, dispostos a ali passar um fim-de-semana de aventuras, o que conseguem mas a um preço que ignoram…
Desconfiança instalada entre os 2 grupos, numa bomba de gasolina onde se cruzam para se abastecer, o preconceito dos jovens liderados por Chad levá-los-á ao confronto directo com os agora residentes, o que desencadeará uma onda de violência em que até o polícia local se vê envolvido, a que apenas escapa a bela Allison, estudante de Psicologia que é salva por um acaso do destino.
Até aqui, tudo bem e o filme promete uma mão cheia de divertimento, se realmente a comeria não se transformar num horror, difícil de suportar, pela recorrência aos estralhaçamento de corpos, num incessante encadeado de situações repugnantes e absurdas que exige ao espectador um violento esforço para aguentar este horror de comédia, como o consideramos.
Estranhamente TUCKER & DALE CONTRA O MAL percorreu 23 festivais, nomeadamente em Sundance nos Estados Unidos, Karlovy Vary na República Checa e Edmonton no Canadá, mas apenas estreou comercialmente em 14 países, 3 dos quais em distribuição limitada e na maioria do Leste Europeu, o que poderá dizer algo sobre o tipo de sentido de humor, tendo arrecadado num mês e meio de exibição nos Estados Unidos, escassos 222 mil dólares.
Ao nosso país, chega esta 5ª feira, pelas mão da distribuidora Lanterna de Pedra.

5 de Janeiro de 2012
A GRUTA DOS SONHOS PERDIDOS de Werner Herzog,
com Werner Herzog e outros.
Documentário

por Falco Fernandes


Com um currículo de 64 filmes realizados, sobretudo documentários, Werner Herzog co-escreveu, dirigiu e narrou o seu mais recente filme, A GRUTA DOS SONHOS PERDIDOS, uma viagem mágica às Grutas de Chauvet, em França, que apenas ele teve autorização para filmar, berço das mais antigas manifestações pictóricas conhecidas da espécie humana.
Começando num lento e belo travelling sobre uma paisagem de vinhedos e elevando-se numa grua que parece interminável, até nos apresentar, duma forma fascinante, o objectivo deste seu movimento: as pinturas feitas há dezenas de milhares de anos, nas paredes das grutas de Chauvet.
Num local classificado quando da sua descoberta e a que apenas um escasso grupo de cientistas, Herzog entrou com uma equipa limitada a 4 elementos, caso do director de fotografia Peter Zeitlinger que captou imagens surpreendentes de rara beleza e grande significado, sinal inequívoco do despertar do homem.
Não só o esplendor do local, mas sobretudo as perfeitas pinturas de animais, são a matéria-prima dum trabalho deslumbrante que desfila diante dos olhos do espectador, sublinhadas pelo testemunho dos cientistas que o acompanham e pela música composta para o filme por Ernst Reijseger.
A profusão e qualidade dos desenhos atinge o clímax, quando os animais surgem desenhados de uma forma que sugere o movimento e Herzog designa como “proto-cinema”.
Para se ter uma ideia da grandiosidade deste museu vivo, de 1997 até 2009, partiu-se de 127 estações de rastreio, para 527 milhões de pontos identificados; de 1800 horas de topografia, para 680 horas de rastreio; e em 240 horas de fotografia, atingiu-se a extraordinária marca de 6000 fotografias.
Arqueologistas, paleontogistas, artistas, perfumistas, a curadora e o próprio director do centro de pesquisa, vão explicando o trabalho que tem vindo a ser feito e os objectivos esperados, tendo já concluído que a cave nunca foi habitada por humanos, mas pelo chão vão surgindo ossadas de animais, provavelmente guardados num local fresco, o frigorífico de então.
Num edifício próximo do local, munidos dos seus computadores, os especialistas envolvidos no projecto, analisam os dados recolhidos que partilham, o que permite à equipa chegar a novas conclusões.
É que a gruta, como é muito comum, apresenta uma grande profusão de estalactites e estalagmites, o que permite ter uma ideia da temperatura que reina no seu interior e tornam este local numa espécie de catedral, onde muito provavelmente terão ocorrido rituais de caça, uma das explicações para o homem do Paleolítico pintar sobretudo animais.
Imagens e esculturas de cavalos, bisontes, panteras, leões e outros animais, como espécies hoje extintas, mas também humanos, instrumentos de caça e instrumentos musicais, como flautas, foram pintados com uma excelência que confere a eventuais utilitários de ritual, em sublime arte, um regalo para o olhar do espectador, através deste trabalho de rara beleza de Werner Herzog.A não perder A GRUTA DOS SONHOS PERDIDOS, deslumbrante lição de história e peça de arte, de sublime excelência.

5 de Janeiro de 2012
BRUNA SURFISTINHA - O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO de Marcus Baldini,
com Deborah Secco, Drica Moraes, Cássio Gabus Mendes, Clarisse Abujamra.
Drama / Erótico /Verídico

por Falco Fernandes


O mínimo que se pode dizer do estreante em longa-metragem de fundo Marcus
Baldini
, é que entrou com o pé direito no cinema, arrecadando 3 prémios no Prémio Contigo Cinema, Brasil, os do Público para melhores Filme e Actriz, este para Deborah Secco, cuja prestação também mereceu o Prémio do Júri, na mesma categoria.
Do seu currículo, apenas constava o documentário em vídeo MARIA RITA, de 2003, chegando este ano ao escalão maior do cinema, com BRUNA SURFISTINHA – O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO, assim intitulado por se basear no livro homónimo da call-girl Raquel Pacheco, colectânea dos textos publicados no seu blogue, relatando as experiências vividas na sua profissão.
Pode afirmar-se que, para além do insólito texto original de grande qualidade, uma boa parte do êxito do filme fica a dever-se à prestação da protagonista Deborah Secco que dá corpo e voz à personagem principal. Raquel / Bruna Surfistinha, respectivamente nome e nickname da call-girl. Cujo sucesso a levou a ser entrevistada em programas como os talk-shows de Oprah e Letterman.
Raquel é uma adolescente oriunda duma família da média-alta burguesia de São Paulo que aos 17 anos decide abandonar os estudos no colégio e a família, com a intenção de enveredar pela carreira de call-girl, começando a partilhar as experiências vividas através dum blogue que se tornou num enorme sucesso.
Admitida à experiência em casa de Larissa, Drica Moraes, uma mulher de idade madura que acolhe várias jovens trabalhadores do ramo, sendo recebida com a natural desconfiança das outras 5 que já lá trabalham, mas continua a tomar as refeições em casa da família, a mãe, interpretada pela actriz Clarisse Abujamra, o pai e o irmão que não desiste de a questionar.
Se a primeira experiência não é lá muito bem conseguida, confrontada com o choque da sua nova actividade, já o seu segundo trabalho, com Huldson, o bem conhecido actor de telenovela Cássio Gabus Mendes, a quem se apresenta como Bruna, acontece de forma bem diversa, sem vacilar e assumindo em definitivo a sua nova condição.
A aprendizagem de como se fazer desejar e de entregar-se ao sexo, mas nunca aos clientes, rapidamente a leva a tornar-se a mais bem sucedida da casa, acabando por se tornar um sucesso tal, que se decide a criar o blogue que lhe granjeia a fama, levando-o à primeira entrevista num canal brasileiro, quando a página ganha o prémio interactivo do ano, em que se apresenta como Bruna Surfistinha.
Mas numa história verídica e dramática, depois de calcorrear um longo e muitas vezes dolorido caminho até ao sucesso, maneira duma fábula que a leva a escrever “O Doce Veneno do Escorpião” que vendeu mais de 250 mil exemplares e traduzido em 15 idiomas.
Muito bem narrada em filme, com uma grande sensibilidade e um realismo tocante, BRUNA SURFISTINHA –O DOCE SEGREDO DO ESCORPIÃO, de Marcus Baldini, principalmente com Deborah Secco, merece decididamente uma ida ao cinema.

29 de Dezembro de 2011
O DEUS DA CARNIFICINA de Roman Polanski,
com Jodi Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly.
Comédia

por Falco Fernandes

Saído dos Estados Unidos em 1978, devido a um mandato de captura cuja alegada vítima, então menor, contestou nos tribunais, Roman Polanski vai fazendo os seus filmes na Europa, neste caso fruto de co-produção da França, Alemanha, Polónia e Espanha, inteiramente rodado em território francês e com 2 actores norte-americanos, uma inglesa e um austríaco.
Comédia dramática, esta revela uma invulgar facilidade para desencadear o riso nos espectadores, já que, embora tratando de assuntos sérios, o faz com a subtil ironia de ir revelando o pior da burguesia, através de pouco mais de contacto entre dois casais cujos filhos se envolveram num conflito.
Os Longstreet, Michael e Penelope, de uma condição social inferior, sentem-se lesados na agressão de que foi vítima o seu filho, por parte do dos Cowan, Alan e Nancy, tendo acordado num encontro para tratarem do assunto, resolvendo-o da melhor forma.
Mas após a formalidade dos momentos iniciais na casa dos Longstreet, especialmente preparada para acolher e impressionar os visitantes, os ânimos começam a inflamar-se, a exaltação leva a um rearranjo das cumplicidades, quando se esboça algum espírito de matilha entre o advogado Alan, sempre dependurado ao telemóvel, e o vendedor de produtos caseiros Michael, socialmente deslocado, ambos razoavelmente “nas tintas” para o assunto em apreço.
Surge então o desfiar do rosário de lamentações entre Penelope e Nancy, os queixumes perante a quase indiferença por parte dos maridos, acabando tudo numa banhada de bom whisky e com Alan e Michael entretidos com charutos cubanos de origem duvidosa, mas excelência inquestionável.
Essencialmente uma comédia por onde passam outras histórias e que se assemelha ao que era originalmente, uma peça de teatro da autoria de Yasmina Reza, por ela adaptada com Polanski a um argumento para cinema, em que a quase totalidade da acção ocorre dentro dum apartamento de Paris, como poderia ser levada à cena num palco.
Grande parte do sucesso do filme e para além do argumento, cabe ao quarteto de protagonistas, Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly que interpretam os dois casais em cena.
Comédia sem dúvida alguma, sobre o drama da condição humana, da dificuldade de lidar com as relações sociais, numa sociedade em que impera o culto da imagem e do amor-próprio, CARNAGE é acima de tudo um filme inteligente que nos leva à reflexão sobre nós próprios e a forma como nos comportamos em situações de stress.
Já distinguido com o Pequeno Leão de Ouro de Veneza, atribuído a Roman Polanski, nomeado para os Golden Globes de melhores actrizes, principal e secundária, distinguido pela Associação de Críticos de Cinema de Boston pelo melhor elenco, não seria de estranhar ver O DEUS DA CARNIFICINA, de Roman Polanski, aparecer nas nomeações para os Oscars, já que foi exibido no Festival de Nova Iorque e teve estreia limitada em 16 deste mês.

22 de Dezembro de 2011
O MIÚDO DA BICICLETA de Jean-Pierre e Luc Dardenne,
com Thomas Doret, Cécile de France.
Drama / Romance

por Falco Fernandes

Distinguido com o Grande Prémio do Júri em Cannes e de Argumento nos Prémios do Cinema Europeu, chega esta 5ª feira às salas portuguesas o mais recente filme dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne que também repartem entre si a autoria do argumento.
O MIÚDO DA BICICLETA retoma a temática dos problemas de crianças e jovens, numa sociedade em que frequentemente são indesejados, abandonados ou rejeitados, fruto da desagregação das famílias, corrente nos dias de hoje.
Cyril é deixado pelo pai num centro de acolhimento de menores, numa zona rural, arredores da cidade em que vivem, com a promessa de regressar a casa, logo que alguns problemas sejam resolvidos.
Mas os problemas agravam-se e, a partir de certa altura, deixa de receber as chamadas telefónicas e as visitas semanais do pai, a quem tenta desesperadamente contactar por telefone, recebendo a resposta de que o número foi desactivado.
Rebelde e inconformado, o miúdo consegue escapar-se do centro de acolhimento e correr rumo à cidade, à casa onde moram, ao pai, pensa ele, mas quando lá chega ouve o porteiro dizer-lhe que o pai partiu para parte incerta e a casa que percorre está agora vazia.
Para além do choque brutal com que é confrontado, o maior desgosto é o desaparecimento da bicicleta que o pai lhe dera e ele esperava encontrar na casa.
Descontrolado, nova tentativa de fuga leva-o até uma clínica, onde finalmente é encontrado pelos responsáveis do centro, mas tem também um inesperado encontro com Samantha, uma cabeleireira que fica profundamente impressionada com o desgosto do garoto.
A mulher voltará a procurá-lo no centro onde está acolhido, leva-lhe um presente que começa a reconciliá-lo com a vida e, a pedido de Cyril, aceita ser a sua família de acolhimento, com quem passará a estar aos fins-de-semana.
Começa então um longo e tortuoso processo de aproximação entre duas personagens magnificamente interpretadas pelo pequeno estreante Thomas Doret e a consagrada Cécile De France que conta já com dois Césars de interpretação, entre outros prémios.
A caminhada de recuperação da confiança nos outros e em si próprio por parte de Cyril e de adaptação à nova condição de mãe adoptiva, por parte de Samantha.Com diálogos duma naturalidade pouco comum, a qualidade fotográfica que só a película garante (embora a projecção entre nós seja feita em digital), assente num argumento feliz, enriquecido pela excelência das personagens e servido por dois bons actores, O MIÚDO DA BICICLETA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, é um encanto para o olhar e o ouvido, merecendo ser visto e reflectido no que encerra sobre os conflitos a que hoje os mais novos são sujeitos.

22 de Dezembro de 2011
O REI LEÃO 3D de Roger Allers e Rob Minkof,
Versão dobrada em português.
Animação / Aventuras

por Falco Fernandes

Com Um dos grandes sucessos da renovada Disney que foi recebido efusivamente em 1994, ano em que foi distinguido com 26 prémios, entre os quais 2 Óscars, regressa agora às salas, 17 anos volvido, enriquecido com a adaptação ao sistema 3D.
Os mais jovens que terão visto o filme aquando da sua estreia, são agora adultos e haverá muita gente nova que vai ter oportunidade, pela primeira vez, de assistir à projecção nos cinemas, mas todos vão ter uma nova visão desta comédia dramática em animação, em que o jovem leão Simba se auto-exila do grupo, com a morte do pai Mufasa a pesar-lhe na consciência, deixando o reino entregue ao seu tio Scar.
Duas das personagens mais apaixonantes do filme são os companheiros que acompanham o crescimento de Simba, o javali Pumbaa e o suricata Timon, estabelecendo-se entre este trio uma cumplicidade que será vital para todos.
A versão agora estreada, em 3D e apenas dobrada em português, não convence, uma vez que se trata da adaptação a diversos planos de profundidade diversa, das figuras originalmente em 2D, apenas se sentindo a magia do relevo, em dois momentos muito específicos do filme.Considerada à época a melhor dobragem do original em inglês pela própria Disney, vai decerto arrastar muita gente de todas as idades às salas, para verem ou reverem O REI LEÃO, um dos grandes sucessos da nova era da produtora criada por Walt Disney.

15 de Dezembro de 2011
UMA SEPARAÇÃO de Asghar Farhadi,
com Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sarina Farhadi, Alih-Asghar Shahbazi, Sareh Bayat.

Drama / Romance
por Falco Fernandes

Com O drama quotidiano duma família iraniana dividida pelas opções do marido Nader e da mulher Simin, o inesperado fosso cavado entre os dois encaminhando-os para uma separação, os efeitos desse afastamento em Termeh, a filha adolescente de ambos, e no pai de Nader afectado pela doença de Alzheimer, são os elementos que alimentam a notável narrativa dum texto da autoria de Asghar Farhadi, por ele transformado num filme de excelência.
Entregando os papéis principais a Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sarina Farhadi e Ali-Asghar Shahbazi, a que há a acrescentar o de Sareh Bayat, no papel da empregada Razieh, e o de Shahab Hosseini, no do seu marido Hodjat, conseguiu reunir um grupo de excelentes actores que confere credibilidade ao fluir narrativo, aguentando sem mácula duas horas de tensão ora contida e subliminar ora violentamente explícita.
Inteiramente rodado em Teerão, capital dum país em fúria, é esse factor que despoleta a insegurança da mulher em relação ao futuro da família e especialmente da filha, querendo aproveitar a oportunidade que surge de emigrarem para outro país, desejo que choca frontalmente com a necessidade do marido cuidar do pai e a sua recusa em o abandonar.
Ao confronto dentro da família de Nader e Simin, eixo da história, vem sobrepor-se um outro com a de Razieh e Hodjat, a partir dum inesperado conflito que os vai levar à barra do tribunal, ao risco mútuo de serem presos, às habituais batalhas judiciais.
E aqui entra a pérola no bolo, quando a Fé e as necessidades de cada um entram em jogo, as personagens têm de decidir entre o respeito ao Corão, seu guia espiritual, e a necessidade de sobrevivência ou muito simplesmente de manter uma imagem que o espectador sente esbater-se dia a dia, à medida que os conflitos se agudizam, salvando-se apenas na personagem mais humilde.
Asghar Farhadi consegue registar e mostrar-nos duma forma cristalina a alma iraniana a par com a situação actual do país, dispondo no ecrã um discurso simples, despojado de adornos, duma fluidez que deixa o espectador de respiração suspensa quando se descobre já no final do filme, à espera duma derradeira resposta que não chegará a saber.
Partindo dum orçamento estimado em 231 mil euros, o filme já rendeu mais de 8,5 milhões de euros, em 7 dos países em que estreou até agora.
O nosso país é o 43º a mostrar este filme que se estreou em Fevereiro passado no Festival de Berlim, onde mereceu 4 prémios um dos quais o Urso de Ouro, passando depois por outros 34 festivais, onde arrecadou mais 22 distinções.
Tal acontece pela mão da jovem e pequena distribuidora Alquimia, senhora duma carteira de excelentes filmes que têm visto a sua exibição pelo país dificultada pela pressão do que quer que nos chegue do outro lado do Atlântico.Que faça uma boa carreira em sala e entre no circuito dos cineclubes, beneficiários do Programa de apoio à exibição não comercial – REDE, neste momento de futuro incerto, devido à inexistência de normas para 2012 que até agora ainda não chegaram ao ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual.

20 de Outubro de 2011
PATER de Alain Cavalier,
com Alain Cavalier, Vicent Lindon, Bernard Bureau.

Drama / Comédia
por Falco Fernandes


Com o começo do genérico, duma grande simplicidade, começa uma conversa entre dois homens, um dos quais prepara uma refeição, questionando o outro sobre o que e quanto quer deglutir de cada acepipe, cogumelos, lombo de atum e outras iguarias, retirados meticulosamente de boiões caseiros.
Só no fim do genérico nos apercebemos das mãos dos dois, mas continuaremos durante um bom bocado a não lhes ver a cara, concentrados no que se passa, como que uma cena entre velhos amigos, cumprimento dum meticuloso ritual de longa data, repetido anualmente, percebe-se, de há muito tempo.
Quando o campo abre, temos frente a frente o realizador e aqui actor Alain Cavalier e o actor Vincent Lindon, representando-se a si próprios, o primeiro propondo ao  segundo aceitar um cargo que mudará o país e o mundo, dando cabo da estrutura económica que nos escraviza e tem extorquido a população de bens e direitos, reduzindo-a  à condição em que hoje vive a Europa, se vai agravando nos Estados Unidos e vai alastrando pouco a pouco por quase todo o mundo.
Mas um jogo nunca é inofensivo nem inocente e quando percebemos que a câmara circula ostensivamente na acção, quando é pegada sem grandes cuidados para seguir o que acontece ou aparece no filme, começamos a entender que não estamos a ver propriamente um filme, mas uma encenação dum filme em que desmontando o cinema, se acabará forçosamente por desmontar a ficção e se cairá forçosamente na realidade, como entenderemos na parte final.
Filmado com 3 câmaras ligeiras de CineAlta (em dada altura Cavalier e Lindon empunham alternadamente duas, filmando-se mutuamente e há uma terceira registando a cena), meios reduzidíssimos e num estilo quase documental, o espectador é agarrado, pouco a pouco, pela ideia, mas sobretudo pela forma como é exposta claramente, na mais completa nudez: isto já lá não vai com remendos e tem de se optar por soluções radicais que mudem de facto o sistema.
Para além do mais, se dúvidas houvesse, este á mais um filme a juntar-se a tantos outros que provam que, mais do que uma questão de dinheiro, o cinema é uma questão de ideias e se as não houver, não haverá filme: mas aqui há uma ideia forte que conduzirá a acção, poderá mudar a França e o mundo…
Ao longo duma carreira de 53 anos e com 20 filmes realizados, Alain Cavalier manteve uma produção regular de que, até ver, o mais recente é este PATER, filme atípico que responde ao seu desejo de longa data de filmar com o actor Vincent Lindon, amigo pessoal com quem nunca tivera a oportunidade de o fazer.
Para tal, propõe-se fazer um filme dentro do filme, participando ele próprio não só como realizador, mas como actor que contracena com Lindon, a quem e na condição de Presidente da República, propõe o lugar de Primeiro-Ministro, garantindo-lhe que não se recandidatará e lhe passará o testemunho no final do seu mandato que se aproxima.
Filme de homens, apenas uma mulher do staff da candidatura aparece de fugida, é literalmente disputado entre dois jogadores que começam em sintonia quase total, afastando-se e aproximando-se, mantendo-se firmes nas suas convicções mas fazendo cedências estratégicas para conseguirem os seus objectivos, numa apaixonante guerra de galos.
Aconselhável nos dias que correm por razões que os espectadores facilmente compreenderão, PATER, de e com Alain Cavalier, contracenando com Vincent Lindon, um filme com o voto do Grande Écran.

13 de Outubro de 2011
TERÇA, DEPOIS DO NATAL (MARTI, DUPA CRACIUN) de Radu Muntean,
com Maria Popistasu, Mimi Branescu, Mirela Oprisor.

Drama / Erótico
por Falco Fernandes


À partida e até as imagens começarem a desenhar-se na janela branca da sala escura, a curiosidade limita-se à origem do filme, a Roménia d e onde muito pouco cinema nos chega, talvez porque também não se filme muito, tal como noutros pontos desta Europa a braços com a badalada crise.
Mas bastam os primeiros segundos da primeira cena, para entendermos claramente de que isto é cinema, é cinema de grande qualidade, um pouco a recuperação dos melhores dias da “Nouvelle Vague”, meio século depois.
Estamos perante um filme urbano, um triângulo amoroso, coisa filmada até à exaustão pelo cinema, aqui do ponto de vista de um homem que partilha a sua vida com 2 mulheres que o completam e da perspectiva de cada uma delas que um ínfimo detalhe irá mudar, forçando o homem a uma decisão: com qual das duas quer viver o seu futuro.
Clássico, meu caro Watson, poderia dizer-se, 2 mulheres não são problema para um homem, consegue arranjar espaço para ambas, desde que arrumadinhas, cada uma na sua prateleira, um homem organizado faz isso com naturalidade, sem esforço nem problemas de consciência.
Mas o tropeção chega mais tarde ou mais cedo e ele vai ter de lidar com isso, quando as 2 tomam consciência da mútua existência, de que o homem das suas vidas não é inteiramente delas, dispersa o coração por mais alguém, para além delas.
Paul vive há 10 anos com Adriana, com quem está casado e de quem tem uma filha, revela-se um bom marido e quando está em casa, comporta-se como se a família fosse o resto da sua vida para além do trabalho que o mantém muito ocupado.
Raluca é uma jovem dentista, bastante mais nova do que ele e com quem se encontra regularmente, sem nunca exigir que fique porque sabe que ele tem uma família e sabe esperar, ignora-se é até quando.
Uma ida da menina ao dentista, em que a mãe decide acompanhar pai e filha, porá as duas mulheres frente a frente e daí para diante as coisas começam a mudar: Raluca toma consciência da existência física de Adriana, Paul sente que algo se vai toldar daí para diante, sem saber quanto.
Mimi Branescu, Mirela Oprisor e Maria Popistasu são os 3 actores que constroem de uma forma exemplar este triângulo muito pouco equilátero e que se distorcerá ao longo do filme até explodir fazendo alguém saltar fora.
Não se espere a habitual “peixeirada” destas situações, para além da cena de justificada revolta, por parte da mulher traída pelo marido cuja atitude se revelará exemplar, porque a mulher enganada é implacável.
Quarto filme, deste realizador do romeno Radu Muntean, todos eles muito bem classificados e distinguidos, é um poema romântico e dramático que conseguiu desenhar no ecrã, com imagens precisas e as palavras necessárias para o desenrolar da narrativa que se propôs contar-nos.
Filme de grande beleza, como quase sempre sucede com as cinematografias de Leste, não terão sido precisos grandes recursos para produzir este filme que consideramos “decididamente a ver”, tanto pelos espectadores, quanto por quem sonha um dia fazer o seu filme.


6 de Outubro de 2011
AS SERVIÇAIS (THE HELP) de Tate Taylor,
com Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer.
Drama / Histórico
por Falco Fernandes


Nos anos 60, na pequena cidade de Jackson, Mississipi, cidade onde o racismo se encontrava fortemente enraizado, uma jovem destaca-se do grupo de amigas, “meninas bem” que dividem o tempo entre chás de caridade, tardes de bridge e o casamento ou a procura de um rapaz com quem casar.
Como diz, “nunca nenhum homem a cortejou”, não está para se dar ao trabalho de procurar um, dedica-se à escrita, sonha ser jornalista e, se conseguir, escrever romances.
Quando, com Nova Iorque na mira, é aceite no “Jackson News”, o jornal mais importante da cidade, é-lhe entregue a tarefa de responder às cartas das leitoras, uma coluna para que não se sente vocacionada, não sabe as soluções para as dúvidas sobre culinária, limpeza, cuidado com bebés.
Decide então pedir ajuda a uma criada negra que trabalha para uma amiga e os relatos que ouve sugerem-lhe muito mais do que a coluna de jornal, aquilo que realmente sonha: escrever um livro sobre as famílias da sua terra, da perspectiva das criadas negras, tratadas como seres inferiores, mal pagas, despedidas por capricho, mas no fundo as verdadeiras mães dos bebés brancos de que cuidam, deixando os seus ao cuidado de outros.
Entre a escritora Eugenia (Emma Stone) e a serviçal Aibileen (Viola Davis), desponta uma relação de confiança que rapidamente se transforma em cumplicidade, alastrando a outras mulheres negras, numa onda que as levará longe, num momento histórico em que Marthin Luther King luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos.
Depois de se iniciar na realização com uma curta de 2003, a que se seguiu uma longa em 2008, qualquer delas razoavelmente mal sucedidas, o actor Tate Taylor parece ter acertado em cheio na mouche, e o segredo poderá estar no facto de ter passado de argumentista dos seus filmes a adaptador de novelas ao cinema.
The Help”, da autoria de Kathryn Stockett, já era um best-seller e a adaptação de Taylor resultou de tal forma, que o filme terá caído no goto dos espectadores que garantiram a recuperação dos 25 milhões de dólares no fim-de-semana de estreia e até 25 de Setembro já tinham pago à produtora Dreamworks mais de 6 vezes o orçamento, só nos Estados Unidos.
O nosso país é o 6º filme a estreá-lo, 8 semanas após a estreia norte-americana e canadense, está já agendada a sua exibição em mais 16, até agora foi seleccionado para 4 festivais e tem mais 2 no caminho, contando já com 2 prémios Hollywood Film Festival.
É mais fácil destruir um texto de qualidade num filme dúbio, do que fazer um bom filme dum argumento sem força e em THE HELP juntaram-se a fome com a vontade de comer: Tate Taylor transpôs para o ecrã um enérgico grito de revolta contra o conservadorismo, o preconceito, o imobilismo que, tantas vezes, consente no quase perpetuar de práticas no mínimo repudiantes.
Fê-lo com um elenco de grande qualidade, percorrido, para além das protagonistas, por nomes como Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Allison Janney ou Sissy Spacek, entre outros, constituídos numa orquestra bem afinada que torna este AS SERVIÇAIS num filme decididamente a não perder.


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