
8 de Dezembro de 2011
HABEMUS PAPAM - TEMOS PAPA de Nanni Moretti
Drama
por Margarida Mateus

O que aconteceria se de repente aquilo que tomamos por certo se revelasse absurdamente incerto? O que aconteceria se a nossa Igreja, que é a base da nossa fé, parasse e não tivesse capacidade para nos acalmar? O que aconteceria, no fundo, se durante dias não tivéssemos líder espiritual?
Nanni Moretti cria um cenário onde o impensável acontece, um homem, porque é de homens que falamos, ao ser eleito Papa não consegue assumir esse papel.
Recusa-se a assomar aos fiéis que aguardam fervorosamente a sua primeira bênção.
O fumo branco que os encheu de alegria é agora uma longínqua recordação enquanto gravitam neste vácuo sem representante supremo do Vaticano.
Michel Piccoli mostra-nos um Papa que não quer ser Papa e ao invés de termos Papa, temos agora a incerteza.
Os cardeais têm de permanecer encerrados no Vaticano sem contacto com o mundo exterior até que o Papa se decida a assomar à janela.
Na impossibilidade de o conseguirem levar a superar a crise de pânico que o acometeu decidem chamar o psicanalista Brezzi, interpretado pelo próprio Nanni Moretti, para analisar o santo padre. Igreja e ciência unem esforços para que tudo volte ao normal o mais rapidamente possível, mas nem o melhor dos melhores consegue convencer sua santidade a assumir as novas funções.
Durante 102 minutos assistimos a um desenrolar de hilariantes peripécias que nos fazem esquecer tudo o que não tenha a ver com o que se passa na tela e nos agarra a toda a acção.
Com uma imagem de elevada qualidade aliada a um casting irrepreensível HABEMUS PAPAM é sem sombra de dúvida uma das obras-primas do ano.
Quando termina a exibição ficamos com a noção de que, sem entrar em posições radicais contra a Igreja Católica, Nanni Moretti humaniza aqueles que supostamente estarão mais próximos de Deus dando-lhes inseguranças, conflitos internos e principalmente a consciência de que ser Sua Santidade o Papa não é tarefa fácil mas sim um posto repleto de responsabilidades que pode provocar pânico e dúvidas e que por vezes é demais mesmo para o escolhido.
HABEMUS PAPAM pode não nos dar um Papa que fique na história mas dá-nos sem dúvida um filme que ficará na nossa memória.
28 de Julho de 2011
ANGÈLE E TONY de Alix Delaporte
Drama
por Falco Fernandes
A verdade é que já não se fazem filmes assim!
Ou, pelo menos, mergulhados no tsunami do cinema norte-americano, raramente nos chegam exemplos de como o cinema pode sobreviver à violência e ao sexo, às perseguições musculadas entre polícias e ladrões, passa muito bem sem tiros, murros, gritos.
Angèle é uma jovem de 27 anos que carrega sobre os ombros um passado obscuro que a manteve longe do filho durante 2 anos e precisa urgentemente de reencontrar um rumo para uma vida complicada e aparentemente sem saídas.
Tony é um pescador que perdeu o pai há meio ano, não pode deixar a mãe nem largar o barco que alimenta a família e se confronta com o irmão, revoltado, precipitado, inconformado com a perda do pai.
Um dia Tony comparece a um encontro com Angèle que publicou um anúncio em busca de alguém com quem se casar, algo que iria responder a um dos maiores dramas que lhe ensombra a vida: a eventual perda da custódia do filho.
O pescador chega atrasado, a jovem tem de regressar ao emprego mas não desiste e acaba procurando-o no porto de pesca, onde se vivem tempos exaltados de confrontos com a polícia, à conta das quotas impostas pela União Europeia, com o irmão de Tony como principal activista dos pescadores.
Começa então uma longa caminhada paralela de Angèle e Tony à procura um do outro, ela bastante mais velho do que ela, resistindo à ansiedade da jovem em se aproximar dele e conseguir o objectivo que a salvará.
Clotilde Hesme e Grégory Gadebois, dão corpo a esta fábula dos nossos dias, em que os dramas de cada um e de todos vão encontrando resposta em valores hoje algo descurados, como a amizade e o amor.
São duas interpretações excelentes, num drama escrito em prosa poética e por onde passa, num papel menor, a actriz espanhola Lola Dueñas, no papel de Anabel, que se torna rapidamente cúmplice de Angèle, apoiando-a sem fazer perguntas, partilhando umas puxas dos charros nocturnos e ajudando-a na aproximação e conquista da confiança de Tony,
Parece um filme dos anos de ouro do cinema francês, um trabalho ao nível do que nos deram nomes como Truffaut ou Rohmer, sóbrio nos diálogos, hábil a transmitir o sofrimento íntimo das personagens e a deixar entrever o horizonte que se avizinha e não parece fácil de atingir.
Mas não é um filme da “nouvelle vague”, podendo talvez enquadrar-se na “contre-vague”, saído da mão dum estreante em cinema de fundo, Alix Delaporte, que também escreveu o argumento.
A nosso ver, o cinema francês no que tem de melhor, oferecer-nos seres humanos de carne e osso, a braços com os dramas de qualquer um de nós e procurando saídas diferentes da destruição e da morte, antes espreitando janelas por onde a luz ainda pode brilhar.
21 de Julho de 2011
A CONSPIRADORA de Robert Redford
Drama / Histórico
por Isabel Santos

Depois de um interregno de quase 5 anos, Robert Redford regressa ao grande ecrã com uma história baseada em factos verídicos e que remonta a 1865, data da morte de Abraham Lincoln.
Segundo um argumento assinado por James D. Solomon e com James McAvoy, Robin Wright e Johnny Simmons no elenco, Redford assina um drama apaixonante que marcou a vida da América no dia 14 de Agosto de 1865, no Teatro Ford.
Durante uma saída com a mulher para verem uma peça de teatro, Abraão Lincoln, o primeiro Presidente dos Estados Unidos é assassinado à queima-roupa, numa conspiração concertada, em que o vice-Presidente e o secretário de Estado são também vítimas.
Oito pessoas são presas e acusadas de conspirar para matar o presidente e os seus mais directos servidores, mas a oitava pessoa a ser presa é uma mulher, Mary Surratt, a dona da estalagem onde decorriam os encontros secretos dos conspiradores.
Toda a trama é desenvolvida em torno desta mulher, que arrisca a sua vida para defender a família, pondo em causa o jovem advogado que a defende.
Aiken, é um jovem herói de guerra, sem experiência de defesas em tribunal e vai assim tentar provar a inocência da sua cliente, que descobre estar a ser usada para conseguirem capturar o único homem que conseguiu fugir, o filho de Mary Surrett.
Um argumento poderoso, com um discurso enigmático, próprio daquela época, em que a América vive o seu pós-guerra, enfrenta os primeiros tempos da democracia, de lutas pelo poder, pelos direitos dos escravos, aplica generosamente a pena de morte, assuntos sempre encobertos, mas presentes neste filme.
Robert Redford traz-nos um filme de época, escuro e tortuoso no seu discurso, como são todos os filmes que retratam processos judiciais, com uma excelente direcção de actores, como é seu apanágio.
21 de Julho de 2011
INSIDIOUS - INSIDIOSO de James Wan
Thriller
por Falco Fernandes

Um dos géneros de thriller que reaparece com alguma regularidade nos ecrãs é o que aborda a vasta área do paranormal, adequada à abordagem por parte do cinema com forte vocação para o esoterismo.
Nem sempre os resultados são os esperados, o tema exige uma sensibilidade muito aguda e o mínimo desvio pode transformar o que pretendia assustar, sobressaltar ou mesmo aterrorizar, num objecto motivador de gargalhada.
Por outro lado, a evolução meteórica dos efeitos especiais, sobretudo na era do digital, levou à saturação de muito do cinema que hoje se faz, em manifesto prejuízo deste género que vive muito mais daquilo que sugere, do que propriamente do que oferece ao olhar do espectador.
INSIDIOSO é o mais recente trabalho do realizador James Wan, especialista no género e que já nos ofereceu filmes como a curta SAW e a longa SAW – ENIGMA MORTAL, esta última detentora de vários prémios.
Fiel ao thriller paranormal, pode considerar-se um filme sóbrio, sem recurso a exageros desnecessários, para além de apresentar o irrisório orçamento de 1 milhão e 500 mil dólares, menos do que alguns filmes portugueses.
Um casal com 3 filhos acaba de mudar de casa, um incidente coloca um dos rapazes num estado de coma sem causas aparentes e que os médicos não conseguem explicar, ao mesmo tempo que na casa acontecem coisas estranhas que levam a mãe a um estado de pânico extremo, seguindo-se nova mudança de casa, deixando para trás a vivenda que consideram assombrada.
Mas os fenómenos regressam às suas vidas, o que quer que seja que os persegue nada tem a ver com a casa mas com um deles e, em desespero de causa, a mão recorre primeiro a um padre e depois a uma equipa de especialistas na matéria que irão ajudar a revelar segredos antigos, muit bem guardados na família.
O pai Josh, a mãe Renai e o filho acidentado Dalton são as 3 personagens centrais da estranha e assustadora experiência por que passa a família Lambert.
Protagonizados respectivamente por Patrick Wilson, Rose Byrne e Ty Simpkins, enquanto a mãe luta pela vida dos filhos, pela sua e pela da família, o pai aparente um estranho autismo que cedo levanta suspeitas, talvez a maior falha do filme.
Mesmo assim, um bom divertimento, emoções fortes para os mais sensíveis a estas coisas, INSIDIOUS – INSIDIOSO, de James Wan, a justificar a ida ao cinema para qualquer cinéfilo que se preze.
21 de Julho de 2011
CARANCHO - ABUTRES de Pablo Trapero
Drama / Policial / Romance
por Falco Fernandes

Uma grande cidade com vida nocturna, uma médica que, à falta de melhor, foi colocada nos serviços de emergência médica, um agente de seguros que fareja as urgências dos hospitais, à espera de feridos ou mortos, cujo caso possa angariar para a sua empresa, na gíria “um abutre”.
A dra. Luján e o “abutre” Sosa vão necessariamente cruzar-se numa rua, uma noite, num acidente a que ambos acorrem, ela para prestar assistência à vítima e ele para tentar garantir mais um trabalho.
Nada sabem um do outro, mas Sosa ajuda Luján a colocar a vítima na maca, dois olhares cruzam-se e surge uma centelha do que virá ser uma relação muito mais intensa do que um ocasional encontro deixaria supor.
Sosa tem dívidas a pagar e perdeu a licença para exercer a profissão, até a recuperar e singrar por si, sujeita-se a um trabalho sujo num escritório em que o poder é disputado entre todos, sob a mão de ferro da sinistra figura de El Perro.
Luján faz equipa com Pico, o motorista da ambulância em que ambos se deslocam e acorrem a acidentes, numa Argentina em que morrem 8 mil pessoas por ano em acidentes de viação.
Quando Luján e Sosa se envolvem, nada leva a médica a supor quem ele é, qual o trabalho a que se dedica, quais as cumplicidades que tem, apenas encontra nele um homem mais maduro que deita a mão gentilmente a uma jovem à beira do esgotamento, tentando ampará-la e sobreviver ele próprio à sua solidão.
A partir desta história cujos conflitos facilmente se adivinham, o realizador Pablo Trapero lança um olhar impiedoso sobre um submundo sórdido, em que escasseia o espaço para a amizade e a confiança, quem dispõe desses luxos tem de lutar por eles com força e coragem, como fazem Sosa, Luján e Pico.
Para protagonistas, escolheu dois nomes grandes do cinema argentino, Ricardo Darín, nome que dispensa apresentações e vimos recentemente em O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, e Martina Gusman, esta em início de carreira como actriz e com escassos trabalhos no currículo, mas multipremiada pela actuação em LEONERA, filme de 2008.Sob uma história romântica, um drama em que são denunciadas manobras comuns a todos os países, mas que CARANCHO soube retratar de um modo exemplar.
30 de Junho de 2011
O ATALHO de Kelly Reichardt
Western / Drama / Aventuras
por Falco Fernandes

Corressem os ventos cinéfilos de feição e o mais recente filme desta realizadora, já conhecida do público português por dois dos seus anteriores filmes, WENDY & LUCY e OLD JOY, seria seguramente uma das boas surpresas deste ano cinéfilo que se tem caracterizado por muita parra e pouca uva.
Kelly Reichardt revela um apurado olhar cinéfilo cuja mágica muito poucos conseguem atingir, escolhendo de forma exímia os enquadramentos, apurando ao detalhe o raccord, construindo de modo fascinante o tempo da sua narrativa.
O tempo…
Quase nos sentimos tentados a imaginar um western filmado por Manoel de Oliveira, com o ritmo que a acção dita, demorando olhar onde ele deve parar, porque, como diz, “o plano é para ser visto e, se for preciso, fica, fica, fica…”
MEEK’S CUTOFF ou, entre nós, O ATALHO inscreve-se incontornavelmente no género western que ajudou a tornar o cinema norte-americano num dos mais populares do planeta, num tempo em que se lhe chamava “filmes de cowboys”.
Vivia então das lutas com os índios, no esforço de conquistar terra para os colonos chegados de Inglaterra, dos duelos entre pistoleiros, dos gangsters que assaltavam bancos, numa imensa área pouco povoada em que a fuga “para lado nenhum” era ainda possível.
Mas também do esforço de desbravar a terra seca, de desenterrar o ouro, de unir uma nação dispersa por vários estados, de lançar o caminho-de-ferro que uniria o Atlântico ao Pacífico, antes da era do avião.
O ATALHO recua no tempo e centra-se num detalhe crucial e pouco abordado nos tempos áureos do western: como atravessar um continente, sem pontos de referência, cedendo à tentação de abandonar a caravana e confiar no conhecimento do terreno apregoado por um desconhecido com ar de veterano do far-west.
Três famílias com os seus carros puxados por bois, os cavalos a reboque seguem Stephen Meek por um terreno inóspito, em que o tempo parece parar e, quando a água começa a esgotar-se, apenas vislumbram no horizonte o prenúncio da morte.
Se o guia lidera o grupo, Emily tetherow, a mulher de um doa colonos, lidera a situação, apossando-se do poder, quando os instintos dos homens dão os primeiros de resvalar para as zonas mais primárias de que são feitos.
O encontro com o índio despoleta a situação que relança a hipótese de salvação e coloca o grupo na beira dum precipício que parece adivinhar-se a cada dia que passa.
Mágica, esta estratégia de Kelly que fez com o seu western um filme sobre pessoas, coisa a que o género não nos habituou, na exploração dos bons e dos maus, de filmes de homens com as mulheres apenas em pano de fundo e muitas vezes limitadas às necessidades mais básicas.
O ATALHO, de Kelly Reichardt, protagonizado por Michelle Williams e Bruce Greenwood, é um dos westerns mais inteligentes e belos que nos foi dado ver.
30 de Junho de 2011
O CABELO de Tayfun Pirselimoglu
Drama
por Isabel Santos

Em concurso na Secção Oficial do Festróia, CABELO é uma co-produção entre a Turquia e a Grécia, vencedor de dois prémio no Instambul International Film Fest, esperado em Setúbal com grande expectativa.
Tayfun Pirselimoglu realizou este argumento da sua autoria, centrado num homem só e doente que fica obcecado por uma mulher que lhe vende um bem muito precioso naquelas terras.
Um filme quase sem diálogos, numa cidade em que os homens sacrificam e humilham as famílias em especial as mulheres, este é uma olhar sobre uma Instambul diferente, é o fecho de uma triologia iniciada com RIZA em 2007 e continuada com PUS, de 2010.
Um triângulo amoroso que começa quando uma empregada de limpeza dum centro comercial nos arredores da cidade precisa de dinheiro para entregar ao seu marido, vende o seu longo e sedoso cabelo a um negociante de perucas.
Este turco que já tem inúmeros prémios por outros filmes realizados anteriormente, dá-nos ao longo de cerca de 130 minutos um filme sem movimentos de câmara, com imagens paradas, sem picos de emoção, onde até um crime não provoca qualquer impacto.
Filmado numa Istambul suja e desordenada, onde as diferenças culturais e religiosas são evidentes e a insatisfação está patente em todos os locais, Pirselimoglu ganhou com O CABELO o conceituado prémio FIPRESCI, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, no Festróia.2011.
16 de Junho de 2011
A MULHER COM O NARIZ PARTIDO de Srdjan Koljevic
Drama / Violência
por Isabel Santos (Festróia 2011)

A primeira lufada de ar fresco na secção oficial do 27º Festroia chegou pela mão do realizador/escritor Srdan Koljevic, que já tinha estado em 2005 no festival.
Um retrato de uma Belgrado com vida social e cultural como qualquer cidade da Europa, dividida pelo rio, numa margem a Belgrado nova e na outra a Belgrado velha.
Três história distintas que se cruzam sobre o rio num dia chuvoso.
O filme começa quando uma mulher com um rosto ensanguentado sai de um táxi parado no trânsito e salta de uma ponte.
O motorista tenta impedi-la mas não consegue, quando entra no táxi, vê que ela deixou um bebé no banco de trás.
Gavrilo (papel que conferiu a Nebojsa Glogovac o Golfinho para Melhor Actor), é um bósnio desiludido pela guerra.
Quer ver-se livre da criança e procura a ajuda de uma amiga prostituta para cuidar dela, enquanto ele tenta descobrir se a mãe sobreviveu.
Ao descobrir que ela está em coma no hospital, decide tirá-la de lá para que ela possa ficar com o bebé.
Biljana e Anica, assistem ao sucedido na ponte, esse perturbador acidente une-as.
Tornam-se amigas de infortúnios, pois ambas têm passados dramáticos.
Biljana que trabalha de noite, está de luto pela morte de seu amante que simulou uma apendicite para sair do projecto em que estava a trabalhar e acabou morrendo na mesa de operação.
Por seu turno, Anica, dá aulas e está de luto pela morte de seu filho.
Um drama que mistura cenas mais animadas, quase divertidas em algumas situações, combinadas com música de Mario Schneider, num conjunto equilibrado que faz com que este filme pudesse ser comercializado fora da Bósnia.
16 de Junho de 2011
A VIDA DOS PEIXES de Matías Bize
Drama / Romance
por Isabel Santos (Festróia 2011)

A VIDA DOS PEIXES, filme chileno nomeado para Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, abriu o último dia da competição oficial do Festróia 2011.
Matías Bize, realizador presente pela segunda vez neste certame, trouxe a Setúbal um filme intimista com Santiago Cabrera, Blanca Lewin, Antonia Zegers, Víctor Montero.
Drama que se desenrola numa noite, num espaço reduzido durante uma festa, em que a casa é a verdadeira protagonista, encerra toda a vida de Andrés, todos os seus segredos, angústias desgostos, alegrias, em suma: todas as suas memórias dos seus 33 anos de vida.
Andrés, está de regresso à sua terra natal, depois de 10 anos a viver na Europa, nessa casa, quase labiríntica, onde se cruzam o presente e o passado, reencontra amigos e um grande amor, Beatriz.
A câmara concentra-se nas personagens, em especial Andrés e Beatriz, segue-os entre corredores e salas sempre em grandes planos.
O diálogo, a nostalgia e a saudade conduzidas por este realizador fazem com que não se queira deixar a festa ou será a casa?
O jornalista vai-se sentindo cada vez mais preso num universo ao qual pensava já não pertencer.
Um filme com um toque muito europeu, em que os diálogos e a música são tão importantes como as personagens e o diálogo, um filme que venceu o prémio de melhor argumento no Festroia 2011.
16 de Junho de 2011
MAMÃ GÓGÓ de Fridrik Thor Fridrikson
Drama / Romance
por Falco Fernandes (Festróia 2011)

O conceituado produtor, realizador, argumentista, actor e montador islandês Fridrik Thor Fridrickson apresentou no Festróia, onde já ganhou uma Menção Especial da OCIC em 2001 e um Golfinho de Ouro em 1996, o mais recente dos 18 trabalhos que já realizou para cinema e televisão.
MAMÃ GÓGÓ estreou na Islândia a 1 de Janeiro do ano passado, passou incólume pelos festivais de Hamburgo, na Alemanha, e de São Paulo, no Brasil, e estreou na Noruega em Abril deste ano, tudo sem grandes agitações nem fogo de artifício.
No Festróia foi um “veni, vidi, vincit”, arrecadando o Prémio do Público, um público sensível que se deixou tocar pelo drama desta mãe padecendo da doença de Alzheimer, tema recorrente nos dias de hoje, basando recordar o mega-sucesso de BICICLETA, COLHER, MAÇÃ, na última edição de San Sebastián.
O filme transborda de boas intenções, o que não deixa o público indiferente, num tempo em que os idosos são atirados para lares ao primeiro espirro ou trambolhão, merecendo da família visitas cada vez mais espaçadas, porque perderam a utilidade e isso, esta sociedade não perdoa.
Mas é fracote, é mesmo uma decepção na obra dum realizador que com 18 filmes realizados e 29 produzidos, apresenta numa carreira que se estende ao longo de 36 anos um palmarés de 20 prémios e 11 nomeações.
Acima de tudo, porque estávamos habituados a um Fridrickson mais objectivo, mais lúcido, menos lamechas e este exagera neste particular.
A explicação é simples, o islandês despertou brutalmente para a realidade trágica do Alzheimer quando a sua mãe começou a padecer da doença e acompanhou atentamente os derradeiros anos da sua vida, o que lhe permitiu construir um filme que chama a atenção para o drama dos idosos.
Mas poderia fazê-lo duma forma bem melhor e mais eficiente, como foi o caso de O PEQUENO QUARTO, de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, que abordaremos em próxima edição e mereceu dois prémios, o Signis e um Golfinho de Prata.
Nem o sentido de humor de Fridrickson logrou evitar que o filme se arrastasse de um modo trágico, quase parecendo que quem estava com alguns sintomas era o realizador e não a personagem.
Falta de distanciamento, eventualmente um excessivo apego à realidade ficcionada, algo não funcionou desta feita com um realizador que esperamos ver em melhores dias e que nos habituou a prestações por vezes surpreendentes, como foi o caso de ON TOP DOWN UNDER, uma curta exibida em 2003 num ciclo de cinema erótico, em que se destacou claramente.Em boa verdade, a protagonista Kristbjörg Kjeld não ajudou muito a personagem, mas o filme ficara seguramente beneficiado sem as cenas patéticas do final, em que Mamma Gógó se escapa do lar, procura a campa de alguém, deita-se nela e adormece no sono final, sendo o espírito levado pela mão dum cavalheiro até um banquinho, onde se sentam juntos a apreciar o pôr-do-sol da Islândia.
16 de Junho de 2011
TIRZA de Rudolf van den Berg
Drama / Aventuras
por Falco Fernandes (Festróia 2011)

O galardoado com o Golfinho de Ouro para Melhor Filme do 27º Festróia recoloca a questão de até que ponto será de todo em todo impossível ao cinema europeu conquistar público nos Estados Unidos e Canadá, quando não na própria Europa, uma vez que TIRZA, de Rudolf van der Berg, estreado no Nederlands Film Festival em Setembro do passado ano e na semana seguinte no circuito comercial holandês, apenas conseguiu chegar às salas belgas, a fazer fé nos dados disponíveis.
Manifestamente posicionado bem acima do nível médio do cinema que semanalmente invade as nossas salas, foi necessário um festival para passar ao alcance da nossa vista, muito provavelmente ficará sendo apenas uma excelente memória desta edição do Festróia que contou com bastantes filmes de grande qualidade.
TIRZA é o mais recente filme do realizador holandês Rudolf van den Berg, de 62 anos, que conta com 13 trabalhos, 2 séries para televisão, 3 documentários e 8 ficções, com mais uma presentemente em rodagem, com três prémios no Nederlands Film Festival.
Jörgen Hofmeester foi abandonado pela mulher Ester que se declara insatisfeita sexualmente, a filha mais velha, Ibi, sai de casa para ir viver com um rapaz francês de quem tem um filho, Jörgen é despedido por se ter tornado “dispensável”.
Toda a sua vida se resume agora à filha mais nova, Tirza, com quem vive uma estreita cumplicidade e para quem planeou de há muito um futuro brilhante, ao ponto de acabar sufocando a sua Sun Flower, como ternamente lhe chama.
Mas os jovens crescem e os pais envelhecem, Tirza é a única virgem da turma e está decidida a resolver o que considera um problema, de qualquer maneiro, escolhendo um marroquino, em que o pai vê um terrorista….
Quando Tirza parte com Choukri para a Namíbia, deixa Jörgen desfeito e ao cabo de algumas semanas sem notícias da filha, este decide-se a partir rumo àquele país africano, em busca dela e decidido a ajustar contas com o namorado que, do seu ponto de vista, a está a destruir.
Ao longo do interminável trajecto pela Namíbia, recebendo contactos regulares da Holanda, de onde a mãe e a irmã de Tirza anseiam por notícias, tem como companhia Kaisa, uma miúda negra de 10 anos que se dedica à prostituição, e que será a sua protegida, a sua confidente, a substituta de Tirza que tarda em localizar.
Denso e profundo, esta abordagem do animal que se esconde por debaixo da máscara dum pai e marido exemplar, navega por águas tão negras como são a relação entre o amor e a posse, entre a perda da felicidade e a compra do prazer, entre a constante e ininterrupta batalha que deuses e demónios travam dentro de nós, sem um momento de trégua.
Por vezes, a narrativa assume contornos líricos dum elevado civismo, duma grande riqueza cultural, dum esboço dos mais nobres sentimentos, para logo de seguida destroçar esses momentos de paz e esperança com a dura realidade que leva Jörgen, a dado passo, a questionar-se sobre o que é afinal o prazer sexual, senão a necessidade visceral de humilhar profundamente o parceiro.Pode ser essa uma explicação da impopularidade deste género de cinema de qualidade: a uma narrativa dramática, contrapor um subtexto que, esse sim, obriga o espectador a pensar e é realmente o tema do filme.
4 de Junho de 2011
PRETO E BRANCO de Ahmet Boyacioglu
Drama / Aventuras
por Falco Fernandes (Festróia 2011)

Se me perguntassem que género de filme é o meu preferido num tempo em que todas as histórias possíveis já foram contadas ao longo de cento e quinze anos e alguns milhões de filmes feitos, não hesitaria em apontar o tema da amizade.
Mais do que nunca, num sistema em ruptura em que as relações se deterioram a uma velocidade fulminante, a nossa hipótese de sobrevivência enquanto comunidade reside nesse sentimento que a tudo resiste e nos liga em relações fortes e duradouras.
BLACK & WHITE, título original do turco SIYAH BEYAZ, poderia bem ser o nome do reputadíssimo uísque, mas é muito mais do que isso: é o nome do bar de Faruk, um dos 5 amigos que regularmente fazem daquele lugar de culto o seu ponto de encontro ao final do dia, bebendo uns copos, conversando, relembrado o passado, auxiliados por mais de mil fotografias que evocam os frequentadores, muitos deles já desaparecidos.
É um grupo heterogéneo e coeso, que por vezes se dica à pesca no pequeno barco de um deles, mas também se empenha em acaloradas discussões, com direito a birras de autênticos adolescentes que se reúnem há 25 anos.
O dono do bar que vive num andar do mesmo prédio construído pelo seu pai e na companhia dum cão, um velho comunista que se dedica à pintura e ouve a internacional saída dum vinil quando os sons da vizinhança o incomodam, um médico em vias de atingir o estado de completo desânimo e exaustão, um advogado que nunca o foi, teve um AVC, guarda um segredo fascinante e vive com um caracol baptizado com o nome duma sua tia, e uma jovem que é o pivot daquele grupo de homens.
Mas como a vida não pára e a ganância do dinheiro tudo devora, segundo o “velhote”, como lhe chamam, Faruk decide encerrar o bar porque recebe uma tentadora oferta de venda do prédio para ser demolido e substituído por algo mais adequado aos nossos dias.
Instala-se a confusão, nenhum dos outros aceita de bom grado a decisão de Faruk e, confrontados com a incontornabilidade do tempo, todos vão ter de tomar decisões, de uma forma ou de outra, revendo as suas vidas, corrigindo detalhes, confrontando-se com factos que preferiam não ter de enfrentar…
Uma mão cheia de histórias fascinantes, todas baseadas em factos reais como nos contou o argumentista e realizador Ahmet Boyacioglu que, após uma curta realizada em 2001, se abalançou agora no cinema de fundo, vendo-se de imediato distinguido com o Prémio Especial do Júri no Festival de Mannheim-Heidelberg e participa no Festróia com o seu filme inscrito na secção de Primeiras Obras.
O velho militante comunista Ahmet Nihat, o dono do bar Faruk, o advogado falhado Muzaffer, o Doutor cujo nome nunca chegamos a conhecer e a jovem Ayten que não atina com o homem ideal, constituem um quinteto de ouro que interpreta uma divertida e arrebatadora sinfonia sobre a amizade, dirigidos pelo maestro Ahmet Boyacioglu que para além de esfuziante por estar em Setúbal, acompanhando o seu filme e integrando o Júri Oficial, se revela dia a dia uma das figuras mais simpáticas deste encontro de gente do cinema e ontem nos dizia “nunca enriquecerei, mas sou extremamente feliz!”
2 de Junho de 2011
GET LOW - A LENDA DE FELIX BUSH de Aaron Schneider
Western / Drama
por Isabel Santos

Aaron Schneider, director de fotografia com carreira na televisão faz aqui a sua estreia como realizador em longas-metragens, com um filme em que Robert Duvall e Bill Murray são os principais protagonistas.
Um drama baseado numa história verídica, passado em finais dos anos 30, e que deixou a América estupefacta, em especial o estado do Tenessee, onde atraiu muita gente.
Felix Bush é um velho eremita, vive há mais de 40 anos afastado da cidade onde não é visto com bons olhos e abundam as histórias loucas e macabras acerca da sua pessoa.
Quando Bush sente que o fim está próximo, decide pôr em prática uma estranha e bizarra ideia, recorrendo para tal ao serviço de Frank (Bill Murray), dono de uma funerária.
Com uma direcção de fotografia fantástica, num olhar apenas acessível a quem domina à perfeição esta sensível técnica cinematográfica, Aaron Schneider filma este drama cheio de mistério com a segurança de um realizador experiente em que o cast de luxo conta com Sissy Spacek, Luckas Black e Bill Cobbs.
Mas este drama é também uma história de amor incondicional entre um homem, uma mulher, a sua arte e o apego à verdade.
Aos 80 anos, Robert Duvall, é uma figura impar no cinema, alto, seco, grisalho, rouco e tomando medidas drásticas, é um Felix Bush assustador, e brilhante que se vai ganhando humanidade ao longo dos 100 minutos de filme: de facto, ELE É O FILME.
14 de Abril de 2011
QUINZE PONTOS NA ALMA de Vicente Alves do Ó
Drama / Romance
por Margarida Mateus

“Por vezes ter tudo não chega”, esta é a frase que mais se associa à estreia cinematográfica na realização de longas-metragens do escritor Vicente Alves do Ó.
Após ter escritos filmes como KISS ME ou INIMIGO SEM ROSTO, QUINZE PONTOS NA ALMA surge como uma prova de que o argumentista não só consegue transmitir as suas histórias por palavras, como consegue transpô-las para uma sequência de imagens coerentes e apelativas.
O risco era elevado, quantos poetas apesar de exímios escritores se revelam medíocres diseurs.
Poderíamos estar perante uma obra de prazer solitário, apelativa unicamente para o autor mas Vicente tem efectivamente, não só uma história para contar, como um desejo real de a transmitir ao seu público.
Esta é a história de Simone Avelar, uma mulher com uma vida aparentemente perfeita que, numa noite, é acordada desse estado de perfeição por um beijo. Como uma bela adormecida, esse momento é o interruptor que liga as luzes de toda a sua existência. Simone a mulher perfeita começa a questionar interiormente todas as suas conquistas em prol de um beijo de um desconhecido suicida num viaduto, momentos antes do suicídio.
Guilherme saltou da ponte e Simone continua a sua viagem para o encontro com o marido Eduardo que a aguarda para mais um aniversário de casamento.
Este é um filme sobre opções que se transformam em obsessões ou como um momento pode transformar a nossa vida num monótono filme a que assistimos numa escura sala de cinema.
Simone vai deixando sucessivamente para trás o marido, os amigos, a casa e o emprego sem nunca os tentar recuperar. Nunca pede desculpa ou dá explicações… Perante a incompreensão de todos, o silêncio inexorável e impenetrável.
Mário, amigo de Simone, tenta avisá-la para o perigo que corre quando lhe diz:”Tens de ter cuidado, porque o silêncio é muito mais ruidoso do que uma boa gargalhada”.
Simone não quer saber, a sua vida já não faz sentido nem o inquestionável amor de Eduardo. O seu lugar não é ali.
Ao longo do filme assistimos à metamorfose de Simone de mulher com uma vida perfeita para viúva de um desconhecido.
Mas esta não é a única personagem a sofrer um processo de mudança, existe Raquel, a mãe de Guilherme, uma mulher impenetrável, estudada, perfeita, talentosa escritora, matriarca da família, a qual habita numa realidade aparentemente imutável.
Ao longo da acção, porém, esta perfeição vai-se desfazendo a olhos vistos até ao reconhecer de uma verdade que a transforma num ser frágil mas mais humano.
Num casting em geral bem conseguido, Rita Loureiro, no papel de Simone, destaca-se pela sua interpretação de uma mulher cujo sofrimento não poderia nunca resvalar para excessos ou exuberâncias, pela profundidade do mesmo.
Esta é sem dúvida uma aposta ganha do estreante realizador Vicente Alves do Ó, o qual nos presenteia com um filme que nos ensina que o poder do que nos move não deve diminuir pela incompreensão de quem nos rodeia, mesmo que isso nos custe tudo o que conquistámos até aí.
7 de Abril de 2011
NUM MUNDO MELHOR de Susanne Bie.
Drama
por Isabel Santos

A realizadora dinamarquesa Susanne Bier tem desde 27 de Fevereiro de 2011 a estatueta dourada para melhor Filme de Língua Estrangeira a juntar ao seu já invejável currículo.
Com o filme NUM MUNDO MELHOR, co-produção sueca-dinamarquesa que tem como tema de fundo a violência, confirmou uma vez mais que a cinematografia europeia continua viva.
Trata-se de uma história forte, bem estruturada e dirigida com apurado know-how, abordando os temas que actualmente preocupam os pais e atingem as famílias.
Falta de comunicação, conflitos familiares, morte prematura, vingança, são os condimentos que Susanne reuniu neste filme que se passa numa cidade quase perfeita, onde o mar e campo convivem numa paisagem e calma soberbas.
Alheados ao bem-estar económico, são cenário quase idílicos que se contrapõem a imagens e pequenos apontamentos de deserto, miséria e violência num campo de refugiados algures em África.
Mas a placidez é ilusória da violência, preconceitos latente nos mais jovens, falta de comunicação entre pais e filhos, professores e alunos que alimentam um clima de tragédia anunciada.
Estes condimentos, quando combinados, dão origem aos mais imprevisíveis desastres, dos pequenos e pessoais que acontecem na nossa casa, aos gigantescos e sociais que fazem capas de jornais e abrem os noticiários na televisão.
Elias e Christian, dois garotos que se tornam amigos na escola dessa pequena cidade dinamarquesa, vivem embora de formas diferentes, são agora vítimas de bullying e falta de comunicação com os pais.
Problemas candentes que parecem inicialmente ser o tema central do filme, mas a verdadeira violência está escondida, quer seja naquela pequena cidade ou em África. Um forte argumento num trabalho independente que fez furor em Sundance e saltou para outros palcos, chegando agora às salas portuguesas, Susanne Bier com o seu filme NUM MUNDO MELHOR uma realidade perturbadora tanto na beleza como na guerra, o melhor e o pior do ser humano, num magnífico filme, em que a banda sonora é fundamental.
31 de Março de 2011
MEL de Semih Kaplanoglu
Drama / Romance
por Isabel Santos

Passaram mais de 40 anos desde que a cinematografia turca levou para casa o Urso de Ouro do Festival Internacional de Berlim, mas Semih Kaplanoglu conseguiu repetir o feito naquele que é considerado o festival da Europa onde emergem os novos talentos.
MEL é o drama doce/amargo vencedor do prémio maior da Berlinale 2011 e também o que encerra a trilogia “Yusuf Trilogy”.
Passado no leste da Turquia, na região da Anatólia junto ao Mar Negro, nas florestas onde abundam as flores e as abelhas e se produz o saboroso e perfumado mel turco, este drama relata o timming de um ano na vida de Yusuf, um menino de seis anos, a sua família e o amor.
A fotografia e as paisagem escolhidas o ritmo calmo que o realizador deu ao filme faz-nos sentir o cheiro da floresta, das flores que fazem o mel doce ou amargo, zonzo ou refrescante, o cheiro da lama que Yusuf pisa quando caminha e da humidade que se abate sobre a aldeia, ou o calor do sol que aquece Yusuf quando regressa da escola.
A quase ausência de diálogos ou de música, pautados aqui e além por monossílabos sussurrados entre pai e filho, sons de guizos, marulhar das águas, pios de diversos pássaros são os cânticos da floresta que preenchem a banda sonora de MEL.
A sensação intima e de prazer, como quando Yusuf seca o livro no fogão de lenha, bebe o copo de leite ou tira os ovos do galinheiro, gestos tão simples e tão doces como são os olhos deste menino que sonha ser um dia apicultor.
A difícil arte de um apicultor e seu trabalho incessante em busca de abelhas e locais apropriados para colocar as colmeias, a vida solitária e a precariedade em que vivem, provocam no espectador uma angústia inexplicável, contraponto à sensação deixada pelo filme no seu todo.
Este último filme da trilogia auto-biográfica do realizador aborda uma fase da sua infância em que quase não existe relacionamento com a mãe e a cumplicidade com o pai é total.
O seu mundo gira em torno das saídas para a montanha com o pai, da presença deste no seu dia-a-dia, quando as abelhas desaparecem e o pai parte em busca delas, a sua vida deixa de fazer sentido, a floresta torna-se o seu refúgio e o pequeno falcão o seu guia.
31 de Março de 2011
A SERBIAN FILM de Srdjan Spasojevic
Drama / Horror
por Falco Fernandes

A mais simplista abordagem deste filme sérvio tentará a maioria dos espectadores a aplicar-lhe o rótulo imediato de “pornográfico” ou, com um pouco mais de requinte, considerar que entrará para a história pelo escândalo que tem provocado, onde quer que passe.
Ora se esta última corre o risco de ser confirmada com o passar dos anos, já o rótulo grosseiro de hardcore apenas caberá a quem não saiba do que está a falar, a pornografia exibe sexo explícito, sendo considerada “fake” quando o mesmo é apenas encenado.
A SERBIAN FILM, primeiro filme de Srdjan Spasojevic, é um olhar sobre a aparência da realidade serva de hoje, violento e cru porque ousa mergulhar muito fundo, até um ponto tal que parece exceder a própria dureza da guerra que varreu a região dos Balcãs e é essa a intenção da quase caricatura de horror feita pelo realizador sérvio.
Mas é também um thriller de alucinante tensão e ritmo, montado com uma fluidez sem pontos mortos, emoldurado por uma notável banda sonora musical e de efeitos, interpretado por actores de notória qualidade.
Todas as características do filme de Spasojevic o afastam do que caracteriza o género hardcore, conferindo-lhe a sólida estrutura da boa ficção, tornando-se mesmo surpreendente quando conduz as curvas de emoções do espectador, através da manipulação das situações vividas pelas diversas personagens.
Estabilizado o país pelas forças de paz e entregue aos legítimos representantes do povo, pensar-se-ia que o assunto está arrumado e a longa e onerosa operação teria limpo as nossas mãos dos crimes que ocorreram, perante a complacência dos outros países.
Mas assim não é, a violência das limpezas étnicas deixou marcas que se mantêm vivas na memória dos testemunhos que ficaram e nunca limparão a consciência do que viveram ou fizeram viver.
O que nos dias de hoje é bem claro na produção mais subterrânea no tipo de material que Spasojevic restitui com o seu filme, pornografia levada a um ponto impensável, apenas exportável para alguns países, como é o caso da Rússia.
Embora navegando no tema, A SERBIAN FILM é tudo menos aquilo que muitos vêem nele, um filme pornográfico e violento, difícil de aceitar pelos mais devotados cultores do género.
Perante a indiferença geral em relação a um vulcão que, embora adormecido, fervilha no subsolo de Belgrado, o realizador foi exímio na ficção que co-escreveu e realizou, vindo a causar sérios engulhos ao director do festival de Sitges que, por o ter exibido, está agora a contas com a Justiça.
Milos é um ex-actor de filmes pornográficos que vive agora com Marija e o filho de ambos, suportando as dificuldades dos tempos actuais e sobrevivendo de pequenos biscates que surgem espaçados.
Mas a ex-colega Lejla contacta-o para um trabalho que designa como “arte”, algo que redimirá o género, e convenço-o com a enorme quantia que pagará um trabalho muito especial.
Quando o homem “por quem todas as colegas se apaixonavam” aceita o contrato, mergulha sem o saber num poço que o sugará sem qualquer hipótese de saída, arrastando-o, à sua própria família e à ex-colega.
O megalómano produtor para quem trabalha não reconhece limites e neste aspecto o filme roça muitos casos da vida real, produzindo um tipo de material que rompe todas as barreiras até agora conhecidas, enveredando por atrocidades impensáveis que incomodam os espectadores mais experimentados.
A bem urdida história, resulta num ainda mais bem conseguido filme, exímio no desenvolvimento das cenas de maior violência, em que a narrativa confunde habilmente as realidades da realidade e da vingança que as vítimas procuram e o público deseja.
Srdjan Todorovic, Jelena Gavrilovic e Katarina Zutic dão corpo a Milos, Marija e Lejla, num cast que também conta nos lugares cimeiros com Sergej Trifunovic, no papel de Vukmir, o produtor louco que destrói todos.Francamente desaconselhável aos espectadores mais sensíveis, A SERBIAN FILM foi distinguido no Fantasporto.
27 de Fevereiro de 2011
127 HORAS de Danny Boyle
Drama / Verídico
por Nuno Pedro

A adaptação duma história verídica com o impacto desta, é um desafio que requer o arrojo de um nome como Danny Boyle, que conta já com filmes polémicos como TRAINSPOTTING ou QUEM QUER SER MILIONÁRIO?, qualquer deles objecto de grande polémica, embora por razões distintas.
Cinco dias preso num desfiladeiro praticamente sem água nem comida.
Até onde iria para sobreviver?
Aron Ralston é o homem que viveu na primeira pessoa esta situação e que mais tarde partilhou com o mundo a sua experiência.
De realçar a espectacular actuação de James Franco, dirigido pela mão de um fantástico Danny Boyle, este filme é muito mais do que isso.
De facto, é uma ilustração perfeita da força da mente humana, da determinação de alguém que numa situação de desespero ultrapassa todos os limites para se manter vivo, pelos seus, por si mesmo ou pelo simples facto de que a vida é para se viver. Imperdível.
24 de Fevereiro de 2011
INDOMÁVEL de Ethan & Joel Coen
Western / Drama
por Margarida Mateus

Quem conhece a obra cinematográfica de Ethan e Joel Coen deve ter olhado com alguma desconfiança para esta aposta de fazerem uma nova versão de um velho western de 1969, protagonizado por John Wayne.
Os fãs incondicionais destes mestres da sátira aguardavam provavelmente com pouca expectativa a estreia do filme.
Não era claro que, realizadores com obras como FARGO, O GRANDE LEBOWSKI ou ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS, conseguissem recriar com a mestria que lhes é conhecida, uma história linear de vingança passada nas velhas planícies do oeste americano.
Porém, ele aí está, incontornável, brilhante e cheio de linguagem Coen, INDOMÁVELlança quase para o esquecimento o filme original.
Desde a sua estreia, tornou-se óbvio que os dois irmãos ganharam a aposta, criando quase um novo estilo, o western-Coen.
Hollywood, incrédulo, viu este remake bater recordes de bilheteira e ser agora nomeado para nada menos que 10 Óscares, entre os quais os muito ambicionados: Melhor filme, melhor realizador, melhor actor e melhor actriz secundária.
INDOMÁVEL é, sem sombra de dúvida, um grande filme que ficará na memória daqueles que o virem.
A história é bastante pragmática: Em 1870, uma adolescente de 14 anos contrata um US Marshal para perseguir o assassino do pai, um Texas Ranger junta-se a este par numa perseguição que os leva a percorrer o inóspito território Índio.
Nada mais simples, nada mais coadunante com um típico filme de Cowboys, temos vingança, perseguições a cavalo e homens de barba rija que se digladiam em confrontos onde é claro quem são os bons e quem são os maus.
O mundo visto através do preto e branco dos valores do far west.
Porém, este é um filme a cores, com aquelas geniais tonalidades que só os dois irmãos Coen conseguem obter.
Desde os diálogos, como os proferidos no Tribunal ou entre Mattie Ross (interpretada pela estreante Hailee Steinfeld) e o Us Marshal Rooster Cogburn (interpretado pelo veterano Jeff Bridges), até às aventuras vividas em busca do infame Tom Chaney (Josh Brolin) que se juntou a um bando de criminosos e parece fugir a todas as armadilhas que lhe são criadas.
Tudo é bem conseguido e cómico, com essa comicidade que nos faz rir mas que em seguida nos coloca questões e trata de assuntos sociais que incomodam.
Incomoda o facto de compreendermos que algumas cenas poderiam acontecer na actualidade, incomoda ver expostos preconceitos e valores que estão ainda muito presentes.
Incomoda que os valores dicotómicos que regiam a sociedade americana de há dois séculos atrás não tenham ficado lá e que muitos deles se recriaram, assumiram outras roupagens mas estão cá, nesta que é uma sociedade tão evoluída.
A noite dos Óscares está para breve e mesmo que não ganhe todas as estatuetas douradas para os quais foi nomeado, INDOMÁVELjá ganhou um lugar na história do cinema actual, surpreendeu tudo e todos não só pelas cores que assumiu com os irmãos Coen, mas também pelas brilhantes interpretações de Haille Steinefeld e Jeff Bridges que nos oferecem momentos que oscilam entre a brilhante comicidade e a emocionante ternura.
3 de Fevereiro de 2011
O DISCURSO DO REI de Tom Hooper
Drama / Histórico
por Isabel Santos

Com 12 nomeações na corrida para os Oscares, inúmeros prémios já arrecadados, tendo sido o último atribuído no passado domingo pelo Sindicatos dos Actores dos EUA, Tom Hooper vê o seu filme aplaudido unanimemente pelo mundo da sétima arte.
Um filme que retrata uma época difícil para a Europa, especialmente, para a Inglaterra que teve nela um papel muito importante, O DISCURSO DO REI, centra-se na figura de Bertie, o segundo filho do rei George V, que se viu a braços com a sua coroação quando o seu pai morre e o seu irmão abdica.
Baseado no argumento de David Seidler que, fascinado com a vida e em especial com o handicap do rei, fez um script para teatro que Hooper levou agora com mestria ao cinema.
A sua timidez, gaguez, falta de à vontade e dificuldade de expressão, levam-no a contratar um especialista em terapia da fala, colocação de voz e discursos, com quem estabelece uma amizade que o levam a impor-se pela primeira vez perante a corte.
O DISCURSO DO REI é nada precisamente a posição que a Inglaterra toma perante a Alemanha e que antecede o inicio da guerra, o estóico sacrifício dum homem para servir o seu país..
Um fotografia fantástica onde o contraste entre a opulência da corte e os súbditos é tratado com sobriedade e onde nada é esquecido, a música tem um papel fundamental no decorrer da história, quase tirando o papel principal ao protagonista Colin Firth e ao terapeuta Geoffrey Rush.
Não esquecendo outro importante papel, o da BBC que começa a fazer transmissões em directo dos discursos do rei, com uma simplicidade tocante o realizador faz deste filme de uma época pouco característica, um trabalho único e demonstra que sem violência, sexo e efeitos especiais se pode fazer um filme que prende a atenção do primeiro ao último minuto.
Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce e Timothy Spall compõem as principais personagens do filme O DISCURSO DO REI , de Tom Hooper, que decerto não vai deixar ninguém indiferente.
17 de Fevereiro de 2011
THE FIGHTER - ÚLTIMO ROUND de David O. Russell
Drama / Verídico
por Isabel Santos

Em 2003, a Scout Productions comprou as direitos da história do boxeur Micky Ward e do seu irmão Dicky Eklund.
Depois, vários argumentistas foram contratados para reescrever a complicada história, até que Mark Wahlberg entrou em cena para garantir maior credibilidade ao projecto, nessa altura Aronofsky era o realizador pretendido e Brad Pitt o actor escolhido.
Em 2007, Mark Whlberg dá o guião a ler a Martin Scorsese, na esperança de que este o realizasse, mas este não qiz fazer mais um filme sobre boxe e Aronofsky continuou a ser o realizador pretendido.
A filmagens começaram e em Outubro de 2008 Christian Bale substituiu Pitt e Aronofsky abandonou o projecto.
Wahlberg e Bale escolhem então David O Russel e começam a procurar mais financiamento para o filme.
Em Julho de 2009, as filmagens arrancam em definitivo, depois dos direitos serem comprados pela The Weinstein Company.
Mais uma vez foi a Weinstein a acreditar numa história maldita.
Lowell, cidade que viu nascer Micky Ward e Dicky Eklund é o cenário, uma cidade do interior com falta de amor próprio e em busca de um herói.
Dicky já não é visto como o boxeur que pôs a cidade na ribalta, agora aos 40 anos, em péssimas condições físicas vive de recordações e das lutas que vai arranjando para Micky.
O sonho de ser reconhecido leva-o a aceitar que façam um documentário sobre a sua vida, onde guia pelos antros que frequenta na cidade os jornalistas da HBO, o documentário mostra então a vida miserável que leva e os conflitos gerados por uma família numerosa e que vive à conta dos seus biscates e dos combates de Micky.
Uma história de amor e força de vontade em que David O. Russel utiliza gravações originais de combates de Micky para dar mais veracidade a este documentário ficcionado, sobre aquele que foi campeão do mundo de boxe em 1983.
Mark Wahlberg apaixonou-se por esta história e lutou por ele até o filme estar feito, Micky Ward é um lutador sempre com os olhos postos na família, Christain Bale mais uma vez supera-se, ele que aos 13 anos foi descoberto por Steven Spielberg, transformando-se num camaleão no ecrã, onde as personagens se confundem consigo próprio, caminhando agora a passos largos para o Oscar.
10 de Fevereiro de 2011
CISNE NEGRO de Darren Aronofsky
Drama
por Margarida Mateus

A história deste filme pode-se contar em poucas linhas. Uma companhia de bailado nova-iorquina leva a cena uma versão do clássico Lago dos Cisnes de Tchaikovsky .
O coreógrafo Thomas( interpretado por Vincent Cassel) decide unir na mesma bailarina os opostos retratados na versão original, simbolizados desta feita pelo Cisne Branco e o Cisne Negro.
O primeiro simboliza a pureza, a inocência e a virgindade, sendo o segundo a crueldade, a sedução e a lascividade.
Nina( interpretada por Natalie Portman) é a bailarina ideal para a imaculabilidade de um mas francamente desadequada para a sexualidade do outro.
Lyli, Mila Kunis, outra jovem bailarina é o oposto, respira sensualidade e toda a sua dança é um misto de prazer e sedução.
Quando os papéis são distribuídos, é claro para o espectador que Thomas apostou nas capacidades da inocente Nina em descobrir o Cisne negro adormecido nela.
Durante todo o filme, Darren Aronofsky transporta-nos pelos ensaios deste bailado, oscilando entre o real e o imaginado pela mente cada vez mais perturbada de uma bailarina que pretende atingir a perfeição.
Não a perfeição técnica de uma repetição sincopada de passos, mas a perfeição de conseguir interpretar os dois papéis com a intensidade emocional que ambos exigem.
Por um lado vemos Nina a esforçar-se cada vez mais, por outro vemos Thomas a exigir cada vez mais, envolvendo-se num pas de deux cada vez mais sufocante e doentio.
A acção vai evoluindo e à medida que surge o Cisne Negro, Nina vai-se libertando da sua própria passividade optando por crescer e se libertar da mãe, uma mulher brutalmente controladora, ex bailarina que renegou à profissão para cuidar da filha.
Este é um filme que nos coloca várias questões, entre as quais: será a perfeição passível de ser atingida e qual o preço que estamos dispostos a pagar para a atingir.
Natalie Portman é surpreendente no papel da jovem bailarina sendo este um marco inquestionável na sua carreira. A força e a intensidade com que Natalie vive a personagem de Nina deixa o público com a certeza de que se não foi atingida a perfeição, ela esteve muito perto.
20 de Janeiro de 2011
A REDE SOCIAL de David Fincher
Drama / Comédia / Verídico
por Falco Fernandes

Numa sociedade assente na normalização dos cidadãos, sair do formato-padrão acarreta sempre dificuldades, mais em situações acima da média do que abaixo dela, ao contrário do que seria de supor.
O sobredotado Mark, cujo espírito divaga a uma velocidade próxima da luz, começa por ser uma vítima das excelentes capacidades que possui, mesmo antes do genérico inicial, quando leva uma tampa de Erica, a adolescente com quem namora.
É intenso, brilhante, salta com agilidade de tema em tema, é quase impossível acompanhar a sua conversa, ela diz-lhe “és exaustivo” e acaba namoro com ele, depois do jovem tropeçar em si próprio.
Claro que Mark recebe a decisão de Erica como um murro no estômago e, uma vez só, sai do bar correndo desorientado até à universidade, como se o tempo tivesse parado, empurrado pela excelente música que Trent Reznor e Atticus Ross compuseram para o filme.
E como muitos de nós fazem hoje em dia, a solução imediata é enfiar-se no quarto a desabafar com um computador: ao menos as máquinas são fiéis, não se ofendem nem mentem, são tolerantes connosco e têm uma infinita dose de paciência.
Há que optimizar as capacidades do computador e aumentar os seus horizontes numa rede alargada, tarefa a que se irá entregar com zelo.
Umas horas de trabalho do jovem génio ajudado pelos colegas e acontece o milagre informático: aquilo que Mark apelidou de “facemash”, um banco de fotografias surripiadas, em que as miúdas são tema de concurso, crasha o sistema da Universidade de Harvard, às 4 da madrugada.
Começou verdadeiramente A REDE SOCIAL, filme cuja mais-valia é transmutar o que poderia ser um mero documentário ficcionado dum trajecto de sucesso fulgurante, numa história humana, algo que David Fincher soube fazer muito bem.
Sob o efeito do fantasma, sempre presente duma Erika que não perdoa os efeitos do ataque de raiva que provocou em Mark quando o rejeitou, desenvolvendo a articulação entre este criativo génio de informática e o seu amigo financeiro Edward, dupla a que acaba por se juntar Sean Parker, o criador da Napster, o filme vai percorrendo em paralelo o processo judicial de que o seu criador foi alvo e o crescimento do Facebook, semeado das vitórias, conflitos, alegrias e ansiedades do percurso que os seus protagonistas viveram.
“Não se conseguem 500 milhões de amigos, sem se arranjar alguns inimigos” é uma frase chave do filme inspirado na criação da mais poderosa rede social jamais criada na internet, mas é também a constatação de quem adira ao Facebook sem impor limitações à aceitação de “amigos”.
O crescimento meteórico do que começou como um hobby do estudante de Harvard Mark Zuckerberg, acabou por se tornar um apaixonante num fenómeno global que levantou grandes problemas disciplinares e legais ao seu criador, tornando-o também o mais jovem bilionário da história.
Impossível passar ao lado de A REDE SOCIAL, de David Fincher, com Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Bryan Barter, Justin Timberlake, 4 Globos de Ouro, nomeadamente o de melhor filme dramático, e já nomeado para os BAFTA.
20 de Janeiro de 2011
OS MIÚDOS ESTÃO BEM de Lisa Cholodenko
Comédia
por Isabel Santos
A história de Nic e Jules, um casal de lésbicas casadas e que partilham um acolhedor lar com Joni e Laser, os seus filhos adolescentes, está longe de ser um mar de rosas.
Joni vai partir para a universidade, Laser, mais novo, quer que antes da partida da irmã o ajude a encontrar o pai biológico de ambos.
De repente, Nic e Jules são confrontadas com a presença de Paul na vida dos filhos que, devido ao seu estilo de vida, se sentem atraídos por ele.
Este intruso vai alterar a vida desta família de mães, deitando por terra preconceitos, estilos de vida e educação impostos pelas duas mulheres.
A entrada do homem em cena vai revolucionar por completo a vida de duas lésbicas, nasce um relacionamento com dois filhos adolescentes que não conhecia, para o próprio Paul é um mergulho num mundo novo.
Em Janeiro de 2010, o filme fez a sua estreia no Sundance Film Festival, em Fevereiro ganhou o Urso de Ouro na Berlinale e desde essa data Lisa Cholodenko ainda não deixou de fazer sucesso aonde quer que leve o seu filme, que conta também com nomeações para os BAFTA.
Na noite do passado Domingo, madrugada de 2ª feira entre nós, Annette Benning levou para casa o Globo de Ouro para melhor actriz, faltando agora saber se entrará na corrida à estatueta mais famosa do mundo do cinema.
Lisa Cholodenko, realizadora da longa-metragem “Atracção Acidental” com Christan Bale e Frances McDormand foi na televisão que se tornou celebre com a realização de alguns episódios das séries 7 PALMOS DE TERRA, A LETRA L, HUNG ou PUSH, NEVADA, algumas delas líderes de audiência em Portugal.
Descubram a razão do sucesso deste filme divertido, enérgico, meigo e angustiante, OS MIÚDOS ESTÃO BEM, de Lisa Cholodenko com Annette Benning, Julianne Moore, Mark Rufallo, ainda em exibição nas nossas salas.
19 de Agosto de 2010
CONTRALUZ de Fernando Fragata
Drama /Aventuras
por Margarida Mateus
Fernando Fragata escreveu e realizou o primeiro filme português a ser feito em Hollywood, chama-se CONTRALUZ e conta com um elenco bastante heterogéneo tanto nas origens como no percurso de cada actor.
Elenco que se encontra neste filme e consegue uma harmonia que nos transmite unidade, em que ninguém sobressai porque todos os actores são brilhantes nos seus desempenhos.
Fui ver o filme porque um dia antes… Sim é nesta linha que o filme se desenrola, somos apresentados a uma galeria de personagens que têm em comum o desespero, e a angústia de não saber viver nem amar, pessoas que se cruzam em determinado momento porque esse entrecruzar é essencial para que se descubram e se sintam.
Porque é de sentimentos que este filme fala e são sentimentos que nos provoca, muitos, fortes e importantes
Durante toda a acção Fragata e os seus actores conduzem-nos numa montanha russa de sensações e quando pensamos que vai acabar… surge o final. E é neste final que está a grande mestria desta obra. Não podia terminar de outra maneira, tinha de ser assim.
Para além das personagens, sobressaem as histórias, pequenas grandes histórias que nos fazem esquecer que estamos no cinema e que nos transportam para um tempo em que a tradição oral prevalecia como ensinamento de vida.
Todos têm algo para contar e nesse contar, partilham com o outro, que até pode ser um desconhecido que nunca mais irão ver, mas naquele local partilharam um momento único e deram-se mais um pouco.
Numa altura em que cada vez mais nos escondemos por trás de diversas defesas para que ninguém nos toque o nosso íntimo para que ninguém nos magoe, para que ninguém nos consiga alcançar, este é um filme que nos vem relembrar que se tivermos medo de ser magoados, temos medo de viver. Há que sentir, chorar, sofrer, irritar para depois poder rir e ser feliz.
Mas vamos por partes, há que falar das paisagens, do início, que nos leva pelas planícies americanas e que nos provoca a sensação de vastidão entrecortada pela vertigem da sensação de voar, vamos a alta velocidade, não por montes e vales mas por planícies e desertos até chegarmos a uma cidade com os seus quarteirões que se alinham numa simetria entediante e aí entramos na casa de Jay, personagem de Joaquim de Almeida, que não consegue avançar após a morte da sua mulher, limitando-se a vegetar em casa sem querer sentir mais nada a não ser a sua dor. Felizmente Jay ainda tem amigos e são eles que lhe dão a única coisa de que precisava para voltar a viver…
Esta é a cena inicial do filme, um homem em sofrimento, a partir daqui vamos conhecendo mais e mais pessoas com vários sofrimentos e várias alegrias e com experiências de vida que nos ensinam que nem sempre o silêncio é de ouro.
António Feio fez questão de fazer um pequeno comentário ao filme e nesse comentário está o resumo de toda a mensagem de CONTRALUZ:
“Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento, agradeçam e não deixem nada por dizer, nada por fazer”.
Se quando terminarmos a sessão de cinema tomarmos consciência que temos demasiadas coisas por dizer, então é melhor fazer inversão de marcha porque estamos na rota errada para o nosso destino.
19 de Agosto de 2010
YAZAR de Ben Jailer
Experimental / Fantasia / Romance
por Falco Fernandes

YAZAR é uma curta-metragem de 10 minutos que estreou na passada segunda-feira, ainda não recolheu nenhuma distinção nem especiais elogios da crítica e, no entanto, é objecto de uma Ida ao Nimas neste Grande Écran, a segunda da edição. Porquê?
Em 2003, Rubén Carcellé, fascinado pelo audiovisual, decidiu com um grupo de amigos da universidade dedicarem-se à curta-metragem, fundando no início de 2005 a produtora BrainStormTV, começou com o projecto “En Curt”, difundido numa televisão local.
Dois anos depois, a produtora chegou à Web e em 2008 mergulhou no cinema, mantendo sempre saudáveis independência e distância em relação à produção comercial.
YAZAR que significa “escritor” em turco, é um filme belo e estranho: o texto da autoria do realizador é uma ficção assente na estética oriental, marcada por países como Tunísia, Egipto Bulgária e Turquia.
É falado numa língua própria, mescla de catalão, castelhano, inglês, alemão, grego moderno, latim, italiano e léxico totalmente inventado.
No reino de Nhúrÿnyia há 4 xamanes, cada um dos quais domina um espírito da natureza.
O xamane Groc, servidor de Araur, vai tentar quebrar o pacto sagrado para ser o mais poderoso de todos. Ara pode invocar os Sentidos Sombra, que reúnem as forças mais poderosas da Terra.
Mas está escrito que daqui a cem mil luas, o Mar Terra acabará com o domínio dos Sentidos Sombra para restabelecer o equilíbrio e quando este vai ressuscita Arau que tenta matar o recém-nascido príncipe Yakhbéh, as forças mágicas impedem o assassinato.
Um tio lê à sobrinha Yazar a lenda que fala da rainha Katzitzah que recebe no palácio a notícia da morte do rei Rhiúryn, às mãos de Araur, durante uma viagem em inóspitas montanhas cobertas de neve.
Entristecida com a lenda, Yazar pede ao tio que a narrativa acabe bem e este pede-lhe paciência, lendo-lhe que o príncipe Yakhbéh é um visionário, sabe que as almas dos mortos vagueiam cegas sem encontrar o caminho do Paraíso e liberta um pássaro que guiará o seu pai até ao destino.
Com os interiores filmados nos claustros do Mosteiro de Santa Maria de Ripoli, YAZAR recorre a uma grande diversidade de efeitos na pós-produção, a cargo de Rubén Carcellé, para construir imagens por vezes fascinantes, mas quase sempre surpreendentes.
Em vez de resultar num exercício de puro exibicionismo das modernas tecnologias digitais, coloca estas ao serviço duma narrativa clara e concisa que, mau grado alguns ínfimos deslizes, logra recriar os climas de sonho e fantasia pretendidos.
Como se pode ler no final, o filme é um tributo a THE FALL, do realizador indiano Tarsem Singh, e pode ser visto online, através do link www.brainstormproductions.cat/yazar/ .
12 de Agosto de 2010
A ORIGEM de Christopher Nolan
Drama / Aventuras
por Falco Fernandes
Dom Cobb especializou-se na técnica de invadir o subconsciente, roubando ideias e pensamentos durante a fase do sono, aquela em que o cérebro abranda a vigilância.
Atingido o “state of art” que o coloca no topo dos ladrões mundiais, é contratado pelos poderosos para arriscadas tarefas, que lhe garantiram fama na elite do poder financeiro mundial.
O único senão desta fascinante actividade criminosa é a perseguição das autoridades que o impede de voltar ao seu país natal, os Estados Unidos, onde vivem a mulher e os filhos.
Um dia surge a proposta que o poderá reconciliar com a vida que perdeu, uma última missão que lhe garantirá o branqueamento do cadastro e o regresso a casa.
O difícil desafio que lhe colocam é o de conseguir fazer algo nunca tentado, o inverso do que sempre fez: colocar algo na cabeça de alguém, operação que ninguém sabe se é possível.
Dom Cobb é interpretado por um Leonardo DiCaprio à Scorsese, bem diferente do que nos habituou durante largos anos, com feições mais vincadas pelo avanço da idade, mais maduro e de expressão carregada, numa história em que já não é o galã e muito menos o herói bom.
Encabeçam o cast liderado por DiCpario nomes como Joseph Gordon-Levitt, o seu assistente, Ellen Page, a jovem “arquitecta” da mente, cabendo ao actor japonês Ken Watanabe interpretar Saito o homem que o contrata.
O filme é percorrido por outros nomes de peso como Cillian Murphy, no papel do alvo da missão, Tom Berenger, Marion Cottillard, como a ex-mulher de Cobb, Pete Postlethwaite e Michael Caine, este no seu professor e sogro.
Escrito e realizado por Christopher Nolan, A ORIGEM navega no vasto universo da ficção científica, mantido em segredo durante a produção e a que o realizador se referiu como um “thriller contemporâneo, centrado na arquitectura da mente”.
O filme desenvolve-se em dois intrincados labirintos, a missão e o dramático sonho mantido por Cobb com a mãe dos seus filhos e apenas partilhado com a jovem “arquitecta” Ariadne, cuja importância se irá tornando vital ao longo da acção, e a complexa missão, a decorrer em vários níveis.
Complexo, tortuoso e bem estruturado, o mais recente trabalho do realizador que já nos deu filmes na mesma linha, como INSOMNIA, MEMENTO ou FOLLOWING, revela-se apaixonante e por vezes difícil de acompanhar, tanto pela dose frenética de adrenalina, como pelo vaivém constante entre o sonho e a realidade ou os saltos fantasia / real que se enredam no universo do filme.Exibido também em Imax, INCEPTION de Christopher Nolan é denso, inteligente e apaixonante, merecedor dum atento olhar cinéfilo no indispensável grande ecrã duma sala de cinema.
29 de Julho de 2010
TOY STORY 3 de Lee Unkrich
Animação / Comédia
por Falco Fernandes

Para quem acompanha a saga dos brinquedos de Andy, era claro como água que, mais tarde ou mais cedo, o miúdo havia de crescer e chegaria a altura de entrar no liceu, trocando os brinquedos da infância pelos livros e os computadores.
Colhidos de surpresa, apenas os nossos amigos Woody, Buzz Lightyear, Mr. Potato Head e todos os outros que em vias de serem despachados no camião do lixo, optam pela alternativa de buscarem refúgio num centro de dia para brinquedos sem dono.
À chegada parece o paraíso mas cedo descobrem que se tornaram alvo dum tratamento bem diferente daquele a que estavam habituados nos dois anteriores episódios, instalando-se o pânico no bando, agora alvo das traquinices de miúdos que não conhecem.
Há quem considere tudo perdido, quem pense ter chegado o fim o que é terrível para um brinquedo, mas há também quem acredite sempre numa solução que só pode passar pelo regresso a casa de Andy, custe o custar, o que lhes vai exigir esforço, engenho e muita coragem.
O cowboy Woody e o robot Lightyear estão entre os primeiros a recuperar do choque, começando de imediato a reparar os estragos causados pelo inesperado embate e a prepararem estratégias para emendar o curso dos acontecimentos.
No país dos brinquedos, como na vida real, há sempre quem se deixe intimidar, quem se acomode, não desista e acabe por descobrir um sítio a que possa chamar casa.
Se os dois primeiros episódios dirigidos por John Lasseter, TOY STORY de 1995 que foi um mega sucesso e TOY STORY 2 de 1999 que registou alguma quebra, lançaram uma série mítica, resultado do bem sucedido casamento entre a clássica Disney, à procura de novas soluções, e a digital Pixar, pioneira sempre em crescimento, TOY STORY 3, de Lee Unkrich, surgido após uma pausa de 11 anos e utilizando a tecnologia 3D, especialmente eficiente na animação, parece condenada a tornar-se num blockbuster.
Ainda sem informações quanto ao orçamento do filme, terá já rendido no primeiro mês de exibição nos Estados Unidos, 340 milhões de dólares, aproximando-se rapidamente da receita total do primeiro filme da série.
Mas terá sido a tecnologia 3D principal responsável por este êxito meteórico, até porque os dois episódios anteriores também já têm as suas versões neste sistema.
O sucesso do filme assenta sobretudo num ritmo alucinante, na imaginação com que é concebida a narrativa e na própria estrutura de um argumento capaz de empolgar, fazer vibrar de entusiasmo ou puxar à lágrima espectadores de todas as idades.O drama deste grupo de heróis virtuais é bem real e dum dramatismo pungente, num mundo e numa época marcados pela apatia, o abandono, a fragilidade dos laços entre as pessoas: todos nós já fomos num ou noutro momento alvos desse sentimento de rejeição que nos marcou e arrasa, num primeiro momento os brinquedos de TOY STORY 3 que reagem como os pequenos grandes heróis a que já nos habituaram nos episódios anteriores.
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
EASY RIDER de Dennis Hopper
Drama / Aventuras
Quando EASY RIDER foi lançado em 1969, atravessou os céus cinéfilos como um foguete, começando por Cannes, onde estreou em Maio seguindo-se-lhe a Suécia em Junho, em Julho teria estreia só em Nova Iorque, em 1970 concorreria aos Oscars, apenas nas categorias de argumento original e actor secundário.
E no entanto, a estreia de Dennis Hopper na realização é um road-movie muito simples que acompanha a viagem iniciática de 2 homens, cavalgando as suas Harley pela imensa e árida América profunda, da Los Angeles natal à descoberta do Carnaval de Nova Orleães, movidos a álcool e charros de marijuana.
Ao longo do trajecto, vão-se cruzando com diferentes comunidades e culturas: uma vasta família de acolhedores ítalo-mexicanos, um grupo de hippies pacíficos e abertos aos estranhos, uma vilória em que o conservadorismo dos mais velhos contrasta com a ânsia de aventura dum bando de adolescentes.
Quando o olhar se desvia da estrada, encontra o Oeste americano dos tempos dos cowboys e dos índios, gente tratando a terra e os animais, guiando pequenas manadas de gado, habitações em ruínas e por vezes carcaças de automóveis enferrujadas.
Neste filme onde não chove, vive-se da estrada, da paisagem envolvente, dos encontros e cruzamento de vidas que farão a narrativa, especialmente numa cela onde os dois amigos vão parar e conhecem um jovem advogado que queria partir como eles, mas nunca teve coragem para o fazer.
Peter Fonda é Wyatt, o Capitão América como lhe chama o Billy, um Dennis Hopper dos melhores que percorreram o cinema, Jack Nicholson com 32 anos é o advogado George Hanson, o enfant terrible que os acompanhará ao longo dum pedaço de caminho.
Este trio, mas especialmente a dupla de protagonistas, Wyatt e Billy conduzem com os seus actos e os que provocam nos outros uma narrativa minimalista, um quase documentário ficcionado, que resulta numa das melhores radiografias à América real.
Algo que não se via desde filmes como FÚRIA DE VIVER, 15 anos anterior a este e participado por Hopper, apenas se voltando a ver 25 anos depois, em PULP FICTION, de Tarantino.
O cabeça de cartaz é Fonda, oriundo dum prestigiado clã do cinema, limpo e brilhante, vestindo a bandeira americana também presente no capacete e no depósito da Harley, pouco falador e pensativo que remata o filme duma forma exemplar.
O looser composto por Hopper desperta a ternura do espectador, não por ter muito a dizer-lhe mas pela ingenuidade de Billy, pela sua fidelidade canina ao Capitão América, que está disposto a defender contra tudo e todos.
EASY RIDER resistiu a todas as tentativas de o calarem, continua vivo numa afronta ao sistema, relembrado pelos que o viram e à espera de ser descoberto por quantos ainda o desconhecem, um legado aos cinéfilos e ao cinema, a que Dennis Hopper dedicou a sua vida.
por Falco Fernandes
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
APOCALYPSE NOW de Francis Ford Coppola
Drama / Guerra
Passaram-se 31 anos desde que Coppola chocou a América e o mundo com um filme sobre a Guerra do Vietname que continua hoje a ser incontornável, tanto ou mais do que quando foi lançado..
Vietname que ainda hoje ensombra os americanos, que provocou feridas profunda no país e numa geração que nunca perdoará os pais e filhos mortos a 20 mil km de distância, por uma causa desconhecida.
Mas é Dennis Hopper que nos trás de novo a este monumental filme em que Coppola escolhe um cast de actores tão distintos e notáveis como Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duval e Harrison Ford, para além do próprio Hopper, entre muitos outros.
Este, que acaba de partir para a mais longínqua viagem dos terrestres, faz uma aparição quase meteórica nesta compilação de uma guerra “que um dia vai acabar” como é frisado ao longo de quase 3 horas de filme, é um fotojornalista nas profundezas da selva vietnamita/cambojana, no lugar mais inóspito do planeta e completamente enfeitiçado por um coronel louco, Kurtz, que é procurado pelo exército americano.
Um jornalista que nem nome tem e é contratado por Kurtz para escrever os seus feitos e dar contas dos acontecimentos e métodos que este utiliza junto do inimigo, tenta junto do capitão Willard (Martin Sheen) fazê-lo entender que Kurtz tem planos para ele.
Nesta participação curta, exibe o seu génio louco que o manteve um outsider das grandes produções, assim como o seu grande amigo Peter Fonda., com quem contracena em EASY RIDER.
Mesmo por escassos minutos no ecrã, a sua figura enigmática, marcada por uns profundos olhos azuis e uma expressão atrás da qual se esconde o que lhe vai na mente, não passa despercebida e parece acabada de sair do emblemático motard que percorrera a América 10 anos antes, directamente para a selva cambojana.
APOCALYPSE NOW ganhou um lugar muito especial na história do cinema que nem PLATOON, dirigido por Oliver Stone 7 anos depois, conseguiu destronar.
Esse sucesso, deve-o a um excelente argumento, co-adaptado pelo próprio Coppola da novela “Heart of Darkness” de Joseph Conrad, à dimensão da produção colocada ao serviço do que tinha a dizer aos americanos, a uma belíssima banda musical atravessada pelos Doors e a um cast de excelência, com os actores certos para as personagens, como é o caso do estranho e louco fotojornalista entregue a Dennis Hopper.
por Isabel Santos
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
VELUDO AZUL de David Lynch
Drama
BLUE VELVET é sem sombra de dúvida um filme David Lynch, em que, sob uma aparente tranquilidade mundana, existe um mundo repleto de perversões e vícios.
Jefrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan, regressa à sua terra natal para ajudar o pai, que se encontra hospitalizado.
Lumberton é uma pacata terra do interior americano, cuja principal actividade económica é a indústria madeireira, sendo os seus habitantes o mais normativo possível. Nas primeiras imagens do filme a pista de que esta é uma normalidade frágil é dada ao público pelos filmes assistidos nas televisões.
No caminho entre o hospital e a casa dos seus pais, Jefrey encontra uma orelha humana. Este é o ponto de partida para uma viagem que o leva a sítios impensáveis, e a conhecer pessoas que são no mínimo peculiares.
Durante 120 minutos viajamos com Jefrey e Sandy, Laura Dern, pelo submundo da agressão, da droga do sexo Sadomasoquista, do rapto, da tortura e do homicídio.
Isabella Rossellini, inesquecível na sua interpretação de Dorothy Vallens, a cantora a quem raptaram o marido e o filho é obrigada a satisfazer todas as vontades de Frank Booth.
Frank Booth, interpretado por Dennis Hopper, é o sociopata que domina este negro mundo de afectos e relações. Todas as suas emoções são vividas ao extremo, passando em segundos da violência à comoção, Frank é talvez a personagem mais complicada interpretar e neste caso David Lynch demonstra a sua mestria no casting. Hopper é irrepreensível construindo uma personagem que embora extremada demonstra uma coerência impressionante.
De realçar a cena em casa de Ben, Dean Stockwel, onde num primeiro momento, nos parece que os dois mundos se tocam, mas esta é mais uma impressão do que um facto e cedo tomamos consciência que Ben e Frank estão ligados por uma estranha amizade.
A interpretação feita pelo anfitrião da música “In Dreams” de Roy Orbinson é um dos pontos altos deste filme criando no espectador uma sensação de desconforto e medo, a qual contrasta com a ternura demonstrada. Quando termina sabemos que algo terrível vai acontecer.
VELUDO AZUL assenta na premissa de que a realidade mais normal esconde a realidade mais perversa e que se queremos conhecer as duas temos de estar dispostos a pagar um preço que pode ser demasiado alto.
Finalmente, um agradecimento a Dennis Hopper por nos ter oferecido o inesquecível Frank Booth. Poucos são os actores que conseguem interpretar um sociopata sem cair no over acting. Com o recente falecimento de Hopper, o mundo da interpretação ficou mais pobre.
por Margarida Mateus
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
O AMOR SOU EU de Luca Guadagnino
Drama / Romance Finalmente saí de um filme em estado de graça e a adorar ter estado numa sala escura de cinema numa tarde de calor e sol.
O AMOR SOU EU é sem sombra de dúvida uma obra de arte.
A acção passa-se em Milão, na altura da mudança de milénio e centra-se numa família abastada de fabricantes de roupa. Quando entramos na casa da família somos confrontados com a azáfama da preparação de um jantar comemorativo. Por todo o lado existem empregados e empregadas que se movimentam com uma eficácia assombrosa, mas não é isso que nos prende a atenção, não. O que realmente nos prende a atenção é a rigidez de toda a casa, a frieza das paredes despidas de quadros, as linhas direitas dos móveis, enfim uma sensação de nudez que não nos abandona durante todo o tempo que estamos dentro da casa dos Rechi.
É estranho. Estranho que uma família Italiana seja tão despojada de objectos, que seja tão obcecadamente minimalista. Estamos habituados ao exagero italiano, como o que vemos na casa dos avós Recchi, e não a uma casa tão sóbria. Mas esta não é uma casa tipicamente italiana. É uma casa onde se cruzam duas culturas Tancredi Recchi (Pipppo Delbono), o pai é Italiano mas Emma Recchi (Tilda Swinton), a mãe é russa.
O primeiro grande momento do filme surge com o velho Edoardo Rechi Senior ( Gabriel Ferzetti) e toda a sua atitude perante a vida, todas as suas palavras durante o jantar e a os olhos… Sim porque este é um filme de olhares, de palavras que se dizem sem se ouvir um só som, de sentimentos que se expressam sem espectáculos emocionais, este é um filme em que o amor é vivido, sentido e não racionalizado.
O espectador é carinhosamente levado a ver o que o realizador quer em cada cena, através de um fantástico jogo de focagens e desfocagens, quase como um filme tridimensional. As cores quentes ou frias carregam-nos por uma montanha russa de sensações e emoções.
Todos os dramas deste filme têm a ver com o amor e a incapacidade ou capacidade de o sentir e de o querer viver.
Emma, papel interpretado pela actriz britânica Tilda Swinton, é a mãe. Uma mulher Russa aparentemente fria, que vai para a Itália para viver o seu grande amor com Edoardo Recchi Sr, no entanto esta aparente frieza é desmontada, quando Emma se apaixona por Antonio Biscaglia, interpretado por Edoardo Gabbbriellini, um amigo do filho.
Antonio cozinha com essências e é a essência do amor que descobre com Emma. Sem dúvida que agora a mudança se torna em algo inevitável para os Recchi, não estando no entanto bem claros quais os contornos dessa mudança.
Este é um filme de autor, mas principalmente é um filme de actores. Tilda Swinton é magistral na sua interpretação e não deixa de nos surpreender a cada momento com a expressividade dos seus olhares que sozinhos seriam capazes de nos contar toda a história, e sozinhos seriam capazes de nos ensinar que o amor, querendo, somos todos nós.
por Margarida Mateus
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
VENCER de Marco Bellocchio
Drama / Histórico
Três anos depois de SORELLE, o realizador italiano Marco Bellocchio está de volta aos cinemas, com o seu mais recente filme VENCER, baseado numa história por ele escrita e co-adaptada ao cinema, como quase sempre sucede ao longo da sua obra.
Bellocchio começa a sua narrativa em 1914, oferecendo-nos um retrato da metrópole de Milão, traçado numa sucessão de imagens ao estilo do expressionismo alemão, uma industrialização fulgurante e o bem estar proporcionado à alta burguesia.
Mas o fim da monarquia, a eminência da eclosão socialista e a guerra em que a Europa mergulhará, vão mudar muita coisa para sempre, na sede da antiga civilização românica.
Mussolini é um sindicalista e representante do Partido Socialista, provocador e agitador de massas que, em reuniões e manifestações de rua, desafia Deus, enfrenta as forças policiais e anuncia a aproximação da guerra, reclamando a morte do Papa e do Rei, exigindo a República e o Socialismo.
O futuro ditador conhecera Ida Dalser, na sua terra natal, em Trento, sete anos antes, e as vidas dos dois caminharão a par, acabando por se tornar amantes e talvez marido e mulher.
A consagrada Giovanna Mezzogiorno encarrega-se do papel de Ida, cabendo a Filippo Timi protagonizar Benito e também Albino Mussolini, o filho do casal, fruto da ligação que terão mantido no mais completo secretismo.
Embebendo o filme dos tons monocromáticos do fascismo, Bellocchio estabelece o clima que nos impede qualquer divagação: trata-se mesmo de Mussolini e aquela figura que apela à revolução irá tornar-se no pai do fascismo, tal como Franco, aliando-se a Hitler no seu sonho megalómano de exterminar os judeus e dominar a Europa.
Até os encontros entre Mussolini e Ida decorrem num clima de clandestinidade, como se fosse uma mancha na vida do ditador, entregar-se ao êxtase do amor nos braços de uma mulher.
O filme vai evocando o período da história europeia que levou até à guerra, a sucessão interminável das assembleias, dos slogans apelando às massas, dos panfletos, o despoletar dos conflitos, das contradições, dos ódios que marcam a história de todas as ditaduras da história.
Mas a par disso, vai ressuscitando a imagem já diluída no tempo dum homem que assente em nobres princípios começou por sonhar, acabando por se transformar num criminoso que, atingido enfim o poder, foi responsável por actos que esmagaram o seu e outros povos e da sua amante secreta, a grande vítima no caso.
Não se trata dum filme histórico, mas sim duma ficção muito bem documentada, da visão dum cineasta sobre uma figura da história que marcou o rosto do seu país e o deixou num estado calamitoso.
A novidade que nos traz VENCER, de Marco Bellocchio, é o olhar sobre a vida pessoal de Mussolini, do eterno conflito entre o homem e o político, das contradições entre a política e o amor, uma e outro vividos com a mesma paixão, intensa até ao extremo de o levar à derrocada e à execução em finais da 2ª Grande Guerra.
por Falco Fernandes
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
JUVENTUDE EM REVOLTA de Miguel Arteta
Drama / Romance
Miguel Arteta, realizador independente e de televisão, com origem porto-riquenha tem já o seu filme JUVENTUDE EM REVOLTA nos cinemas portugueses..
Como em todas as épocas o cinema utilizou os jovens adolescentes para alertar o mundo de inúmeros problemas da sociedade.
Mas longe vão os tempos de JUVENTUDE INQUIETA, HÁ LODO NO CAIS ou SONHADORES, passando por PORKYS, nos tempos que vão correndo os problemas sexuais, de identidade, de famílias disfuncionais ou monoparentais e do fanatismo dominam o discurso e a vida dos jovens.
Assim Michael Cera, que embora já com carreira no cinema nunca se tinha destacado, salta para a ribalta pela mão de Jason Reitman em JUNO, quando é futuro pai adolescente, num papel ingénuo e perdido no mundo.
Miguel Arteta, utiliza de novo a ingenuidade que a imagem de Michael Cera, inspira e atira-o para o papel de Nick, um nerd, cujos interesses são diferentes do resto dos adolescentes que o rodeiam.
Com a sexualidade a despertar e as férias de Verão à porta, Nick conhece Sheeni, Portia Doubleday, uma jovem de espírito livre e em busca de aventura.
No auge da paixão, Sheeni leva-o a desenvolver uma outra personagem que se vai revoltar e criar alguns problemas a ambas as famílias e ao próprio Nick.
Uma comédia divertida despretensiosa, com alguns gags mas também cuja personagem que encarna em Nick poderia ser diferente e mais bem conseguida se Cera não tivesse que o interpretar, uma vez que só por si a sua figura é muito estranha e acanhada não combinando com o bad boy que Arteta queria construir.
por Isabel Santos
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS de Juan José Campanella
Drama / Romance
O mais recente filme de Juan José Campanella é mais uma prova inequívoca do actual estado de excelente saúde do cinema argentino, refrescado de nomes e ideias no período pós-ditadura, que tivemos o privilégio de descobrir, no extinto Festival de Cinema da Figueira da Foz.
Para além da incontornável qualidade de O SEGREDO DOS TEUS OLHOS, adaptado pelo realizador a partir da novela “La Pregunta de sus Ojos”, de Eduardo Sacheri que colaborou no argumento, o filme chega-nos com o bolso recheado de distinções, desde o Oscar deste ano para melhor filme estrangeiro, até à maioria dos prémios da Academia Argentina, passando pelos Goyas e tendo sido seleccionado para San Sebastián.
Curiosamente, este filme estreia na mesma semana em que nos chega um outro, baseado numa personagem criada por Abel Ferrara e Zoë Lund, THE BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL – NEW ORLEANS, de Werner Herzog e William M. Finkelstein, entre nós intitulado POLÍCIA SEM LEI, tal como o seu antecessor de 1992.
O paralelo entre estes dois filmes de origens tão diversas e tão diferentes em si mesmos, assenta na tenacidade de agentes da autoridade ou da lei que, para atingirem os fins em vista, passam além do que a própria lei lhes permite.
Ricardo Darín protagoniza Benjamín Esposito, um ex-agente da Justiça que, já reformado, decide escrever uma ficção, baseada num crime por resolver que o persegue há 25 anos.
Mas o oficial de Justiça Esposito é também perseguido por uma paixão nunca assumida pela sua superiora Irene, interpretada por Soledad Villamil, licenciada e de boas famílias, a quem nunca teve coragem de se declarar.
Entalado entre chefe, o juiz Ricardo Morales que considera um idiota, papel a cargo de Pablo Rago, e o único aliado que lhe resta, o seu ajudante Pablo Sandoval, um alcoólico crónico, Esposito tudo fez para resolver a violação seguida de assassinato de Liliana Coloto, (Carla Quevedo) uma professora de 22 anos que deixa inconsolável o marido Ricardo Morales, a cargo de Pablo Rago.
25 anos depois, acompanhado de memórias e documentos, das conversas com Irene, Sandoval e Morales, da intuição de que o caso não bate certo, decide-se a escrever um romance.
Faz então uma longa e exaustiva viagem no tempo, em busca de uma resposta, acabando por encontrar duas…
Análise exímia dos mecanismos da Justiça, da correlação entre as leis, os tribunais e os homens, o filme de Campanella é também um mergulho em áreas complexas da natureza humana, passando pela violência e a dor, a razão e as emoções, a compaixão e o amor.
A partir desta semana nas salas portuguesas, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, de Juan José Campanella, protagonizado por Ricardo Darín e Soledad Villamil, filme decididamente a não perder.
por Falco Fernandes
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
POLÍCIA SEM LEI de Werner Herzog e William M. Finkleste
Policial / Drama
Chega agora ao circuito comercial, depois de ter estado presente na última edição do Indie Lisboa, POLÍCIA SEM LEI, um filme negro sobre os obscuros meandros das investigações criminais.
Werner Herzog nome grande do cinema europeu e realizador convicto de cinema independente usa aqui actores sobejamente conhecidos do mainstream norte-americano, como é o caso de Nicolas Cage, Eva Mendes ou Val Kilmer.
Louisiana, Nova Orleans, pós Katrina, o furação que devastou a cidade, os habitantes tentam recompor-se da tragédia ainda bem presente nas ruas e casas, um caos semi-organizado sente-se ao virar de cada esquina e a polícia não chega para esse caos.
O agente Terence McDonagh, Nicolas Cage, dirige a investigação de um homicídio, tem de tomar analgésicos para poder trabalhar sem dores nas costas, está viciado em medicamentos e cocaína.
Freedy, Eva Mendes, prostituta de luxo, é amiga de Terence, Stevie, Val Kilmer, colega de Terence, violento, pouco diplomata, ansioso por resolver rapidamente as situações.
Sob a direcção de Herzog, os três fazem deste ritmado e envolvente filme a prova de que a remake dum filme de Abel Ferrara pode ser um excelente exercício cinematográfico, em que o olhar independente deste alemão está presente em muitos cenas e onde não existem bons nem maus, apenas mortais com valores e fraquezas, como se passa aliás no original de 1992.
por Isabel Santos
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