Está ultrapassada pelo rumo que as coisas tomaram, a distinção entre cinema e vídeo, entre a utilização da película ou dum sistema digital para o registo de imagens, destinadas à difusão pelas televisões ou exibição nas salas comerciais.
O custo das produções em filme levou muitos cineastas a renderem-se ao digital que registou um acentuado acréscimo de qualidade, impensável há apenas uma década, as câmaras aproximaram-se muito das quase extintas “câmaras de filmar”, usando as mesmas objectivas e requerendo o mesmo cuidado que a película exigia, nomeadamente o recurso a diretores de fotografia.
A televisão deu o pontapé de saída há meio século, quando começou a utilizar, gravadores de vídeo, depressa substituiu as clássicas ArriFlex pelas primeiras videocâmaras ligadas a um gravador portátil.
Os amadores seguiram-lhes o exemplo e em pouco tempo inundaram o mercado os videogravadores domésticos, multiplicando-se os sistemas e remetendo para o sótão as velhas câmaras de 8mm e Super8, os clássicos projectores, numa época em que se tinham conquistado o direito ao som e faziam o gáudio ou causavam o tédio nos serões de projecção com a família e os amigos.
A tendência é os novos filmes serem produzidos em digital, a Kodak declarou insolvência no passado ano, entre nós a Tóbis encerrou enquanto estúdio e laboratório, numa despedida ao sistema clássico, em que apenas sobrevive a Cinemateca e o Museu.
De tempos a tempos, cai-nos em cima uma gota cristalina de puro cinema, mesmo que apenas acessível na versão digital que substituiu os projectores das salas, com o seu ruído característico, mas feito originalmente em película como os primeiros filmes dos irmãos Lumière, com câmaras de filmar como a que eles conceberam para o seu Cinematógrafo, reveladas e montadas segundo o sistema que sobrevive há quase 120 anos.
É o caso esta semana, com um filme que apreciaremos mais adiante e nos soube a lufada de ar fresco no panorama da exibição comercial.
Fique atento à estreia entre nós de O CAVALO DE TURIM, do húngaro Béla Tarr, prepare-se para a qualidade que lhe inundará os olhos e ouvidos, ao longo de duas horas e meia, porque ISTO É CINEMA.
Fernando Mateus
(‘Plano de Abertura’ do Grande Écran 723)
Se bem conheço o cineasta Paulo Rocha, mais do que ser chorado, ele deseja continuar vivo através dos muitos e muito bons filmes que nos deixou, a que raramente os espectadores portugueses nunca fizeram a devida justiça. O realizador tímido que numa entrevista dada em princípios da década de setenta, afirmava não conseguir aproximar a [...]